terça-feira, 13 de setembro de 2016

Quem viu Daiane chorar? Racismo e o adoecimento psíquico

“A minha mãe sempre costurou a vida com fios de ferro”
Conceição Evaristo

Por Emanuelle Goes*


Falamos pouco sobre a saúde e o adoecimento psíquico da população negra, falamos pouco das dores negras causada pelo racismo cotidianamente. Motivada pela campanha de prevenção do suicídio e aguardo o momento certo para abordar o tema, vou aqui tentar falar um pouco sobre o assunto, e destacando o suicídio como última fronteira causado pelo racismo e pelo seu enfrentamento, que nos mata todos os dias aos poucos ou nos leva de uma vez.

“Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida” quando li esta frase pensei sobre a dor, este sintoma que é tão complexo de ser medido, avaliado e tratado, e como se imagina que os negros toleram mais as dores físicas e por isso não precisam de analgesia (medicamento para dor), neste sentido é impossível conceber a dor da alma de uma pessoa negra, pois disseram também que negras/os não tem alma. (DOR - Experiência sensitiva e emocional desagradável associada ou relacionada a lesão real ou potencial dos tecidos. – SBED).

Torna-se negra é saber que todo dia vamos levantar e lutar contra o racismo e que ele sofre mutações mas não cessa, é saber que vão nos colocar em situação limite todos os dias e que esta dor pode chegar a qualquer momento.

Segundo Neusa Santos em seu livro Torna-se Negro “Saber-se negra é uma experiência de ter sido violada em sua identidade, confundida em suas perspectivas, submetida a exigências e compelidas a expectativas alienadas, mas é principalmente a experiência do compromisso do resgate da história e a recriação de suas potencialidades”. É tudo junto mesmo, a afirmação da identidade como um lugar de alimento e o reconhecimento do racismo como a barreira para o alcance da dignidade da pessoa humana.

No título falo de Daiane, e quem foi Daiane? Jovem negra de 23 anos que estudava Engenharia na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, ela cometeu suicídio no dia 14 de maio em sua residência, para os colegas o racismo violento vivido nas Universidades tem causado adoecimentos e tentativas de suicídios como foi o caso de Daiane.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a taxa mundial de suicídio é de 11,4 por 100 mil habitantes (15,0 para homens e 8,0 para mulheres) e no Brasil, o índice de suicídios na faixa dos 15 a 29 anos é de 6,9 casos para cada 100 mil (índice de mulheres é de 2,6 e de homens 10,7. Mas entre 2010 e 2012 um números de suicídio entre a população feminina aumentam em 18%).

Sobre a população negra temos poucas informações, mas os dados sobre suicídio tanto os homens negros (7,6/100 mil) como os brancos (9,5/100mil) apresentam maior taxa de mortalidade por este grupo de causa, e entre mulheres são as mulheres brancas (2,5 100 mil; negras 1,7/100 mil) a maior taxa. Vale destacar que o população negra tem a sua taxa de homicídio elevadíssima sendo a principal causa de morte em relação a causas externas.

Sobre acesso da população negra a serviços de saúde mental, a Pesquisa Nacional de Saúde realizada em 2013 pelo IBGE, revela que em relação à idade do primeiro diagnostico para depressão as mulheres pretas tem sido diagnosticada mais tardiamente quando comparada as mulheres brancas e pardas (Figura).

Dados IBGE/PNS/2013

A fortaleza do corpo negro desumaniza todas as pessoas, sempre quando ouvimos que somos guerreiras, somos fortes e resistentes na luta, estão nos dizendo que não podemos chorar e nem adoecer e muito menos recuar para não sofrer, “engula o choro” quem de nós não ouviu isso? e siga. Daiane engoliu o choro, mas a alma não suportou a dor. Acredito que o suicídio é a dor visceral da alma.

É na categoria da afetividade “que muitas vitórias racistas se acumulam, afetando nossa saúde psicológica por nos fazer carregar repetidas frustrações e aceitar reproduções de relacionamentos abusivos. Tudo isso em silêncio, como se não existisse um problema estrutural.” Stephanie Ribeiro

Foto da internet:
 https://br.pinterest.com/pin/294282156873214144/
“A escravidão condicionou os negros a conter e reprimir muitos de seus sentimentos” bell hooks. A marca da escravidão em nossos corpos e almas, ainda presente nos dias de hoje, pelas práticas racistas fincadas com referência deste sistema, assim como a nossa memória ancestral que não nos deixar esquecer, o que pode ser chamado de Embodiment (termo utilizado na Epidemiologia Social) que descreve o nosso corpo como histórico, legado ancestral atravessa os tempos e corporifica em nós o legado, por isso que não esquecemos que somos beleza, temos historias e herdemos coroas de reis e rainhas africanas. Vivemos na dicotomia das coisas como nos disse Neusa Santos.

Me abrigo nos braços de minha irmã - Para nós, por nós e entre nós

“O amor precisa estar presente na vida de todas as mulheres negras, em todas as nossas casas. É a falta de amor que tem criado tantas dificuldades em nossas vidas, na garantia da nossa sobrevivência. Quando nos amamos, desejamos viver plenamente.”  bell hooks

Nos braços de minha irmã (sister) eu me curo, no colo das Iabás eu me curo, o amor que cura. Se a luta é coletiva, a dor, o amor e a cura também são, a irmandade cura a dor da alma e nos salva do assassinato lento e letal do racismo.  Não estamos sós.


Fontes:


Tornar-se negro – As vicissitude do negro em ascensão social” – Neusa Santos Sousa







*Blogueira, Enfermeira, Coordenadora do Programa de Saúde das Mulheres Negras – Odara Instituto da Mulher Negra, Doutoranda em Saúde Pública (ISC/UFBA). (emanuellegoes@gmail.com)

sábado, 27 de agosto de 2016

PELO DIREITO À SAÚDE DAS MULHERES ENCARCERADAS!




A saúde é um direito garantido pela Constituição Federal. No entanto, no sistema prisional do Rio de Janeiro, o desrespeito a esse direito é tão forte que nem mesmo detentas grávidas em trabalho de parto recebem assistência. No dia 30 de agosto será julgada uma ação, movida pela Defensoria Pública do estado, que obriga o Estado do Rio de Janeiro a garantir atendimento médico nos presídios femininos. Saúde é um direito universal. É meu, é seu, é delas e é de todas. Informe-se Defenda esse direito. Assine o manifesto e nos ajude a divulgar essa campanha.
A Constituição Federal assegura o direito à saúde a todas e todos. (art. 196)
As mulheres presas também têm.

A quantidade de mulheres presas no Brasil cresce vertiginosamente. Nos últimos anos, o encarceramento de mulheres cresceu 570%. Duas em cada três presas são negras.
Dentro do sistema prisional, as mulheres negras encontram dificuldades de acesso a seu direito de defesa e demais direitos estabelecidos nas leis. Essa situação aprofunda seu estado de vulnerabilidade, pobreza e contribui para desestruturação de sua família, vitimando também sua mãe e seus filhos.
O tratamento desigual, o encarceramento desproporcional e as seguidas violações de direitos humanos, incluindo o direito à saúde, nas prisões brasileiras produzem situações trágicas. Em setembro de 2015, uma mulher encarcerada na penitenciária feminina Talavera Bruce, no Rio de Janeiro, foi obrigada a fazer o próprio parto dentro de uma solitária. Segundo o Tribunal de Justiça do estado (TJRJ), apesar dos gritos de socorro de outras presas da cela ao lado, a gestante saiu do local com o bebê, uma menina, já nos braços, porém ainda ligado ao cordão umbilical. Na mesma unidade, para onde são encaminhadas as presas grávidas, uma interna entrou em trabalho de parto, mas a ambulância não chegou a tempo e ela acabou dando à luz no local. Em razão da falta de estrutura, o bebê faleceu. A desassistência vem, muitas vezes, acompanhada de solidão, maus tratos e violências. Resultados de uma pesquisa nacional da Fiocruz publicados em 2016 apontam que mulheres presas grávidas em trabalho de parto tiveram assistência pré-natal ruim ou insuficiente, foram vítimas de violência por parte de profissionais de saúde do SUS e de agentes penitenciários, e foram submetidas ao uso de algemas durante o trabalho de parto. 89% delas relataram que seus familiares não foram avisados sobre o início do trabalho de parto.
São violações sistemáticas de direitos que contrariam e descumprem normas nacionais e internacionais, tais como o artigo 196 da Constituição Federal que afirma: “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.
Mulheres encarceradas são em sua maioria negras e, quase na totalidade, são pobres. O racismo institucional, presente no sistema judiciário e no sistema prisional brasileiro, age de modo patriarcal, sexista e classista e está por trás do desrespeito e da violação de direitos.
Exigimos: 
- respeito à Constituição Federal, às leis e normas que garantem o direito à saúde das mulheres privadas de liberdade
- o urgente enfrentamento ao racismo, ao sexismo e as discriminações de classe social institucionalizados no sistema de justiça e no sistema prisional
- a garantia do acesso à saúde para todas mulheres privadas de liberdade!
Assine você também, clique AQUI!
Assista ao vídeo da campanha "Pelo direito à saúde das mulheres encarceradas!".

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Violência obstétrica e o viés racial

Emanuelle Goes para Cientistas Feministas
As mulheres sofrem violência tanto no parto, quanto na situação de abortamento. Mesmo as que dão “a luz” não estão salvas de serem violentadas institucionalmente. Porque na verdade o grande problema é o SER, mulher negra jovem de periferia, estas categorias sociais/identitárias definem ou ajudam muito na decisão do profissional de como serão tratadas as pessoas que acessam os serviços de saúde.
828a7d0edf4e916f1971d08221068324A violência obstétrica caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda de autonomia e a capacidade de decidir sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres. Essa e a definição dada pelos Estados da Venezuela e da Argentina, onde a Violência Obstétrica é tipificada.  (Defensoria do Estado SP).
Segundo o Dossiê elaborado pela Rede Parto do Princípio para a CPMI da Violência Contra as Mulheres os atos caracterizadores da violência obstétrica são todos aqueles praticados contra a mulher no exercício de sua saúde sexual e reprodutiva, podendo ser cometidos por profissionais de saúde, servidores públicos, profissionais técnico-administrativos de instituições públicas e privadas, bem como civis.
A Pesquisa Nascer no Brasil, realizada em 2014, apresenta dados interessantes sobre as intervenções durante o parto em mulheres de risco obstétrico habitual e boas práticas e o que o estudo mostra é que a infusão de ocitocina e ruptura artificial da membrana amniótica foi uma técnica muito utilizada para provocar a aceleração do trabalho de parto. Ambas ocorreram em cerca de 40% das mulheres de risco habitual, sendo mais frequente nas mulheres do setor público, de mais baixa escolaridade.
São as mulheres negras que mais sofrem violência obstétrica, pois são as que mais peregrinam na hora do parto, ficaram mais tempo em espera para serem atendidas, tem menos tempo de consulta, estão submetidas a procedimentos dolorosos sem analgesia, estão em maior risco de morte materna. Cerca de 60% das mulheres que morrem de morte materna são negras. É importante ressaltar que a morte materna é considerada uma morte prevenível e que em 90% dos casos poderia ser evitada se as mulheres tivessem atendimento adequando.
Sobre a morte materna, enquanto não enfrentamos o racismo institucional nos serviços de saúde e garantir a equidade entre mulheres negras e brancas o Brasil continuará a ter a alta taxa de mortalidade (63,9/100 mil nascidos vivos – 2013), neste sentido é importante destacar que o Brasil não a alcançou a meta do Objetivo do Desenvolvimento do Milênio sobre saúde materna, que deveria chegar no máximo de 35 óbitos por 100 mil nascidos vivos até 2015, mas, se por acaso o Brasil fosse de mulheres brancas (35,6/100 mil nascidos vivos – 2013); (mulheres negras foram de 62,8/100 mil nascidos vivos) a meta teria sido alcançada.
Violência obstétrica, racismo institucional e morte: Caso Rafaela Santos
Rafaela Cristina Souza dos Santos tinha 15 anos, morreu de morte materna após dar à luz em uma maternidade no Rio de Janeiro, em 2015. Houve negligência no atendimento à adolescente, que ficou por mais de cinco horas no hospital, sem atendimento de médico, queixou-se de dor de cabeça, houve insistência no parto normal, quando apresentou quadro de eclampsia, fizeram a cesárea tardiamente e Rafaela foi a óbito.
O Dossiê revela que a eclâmpsia, pré-eclâmpsia e os distúrbios hipertensivos afetam muito mais a população negra, sendo as maiores causas da mortalidade materna da população negra. Apesar disso, o médico não poupou seu diagnóstico com base em preconceito racial e socioeconômico. O racismo dos profissionais de saúde atrasa a decisão da mulher de buscar assistência, dificulta o acesso da mulher ao serviço de saúde, dificulta o acesso da mulher ao tratamento adequado.
“Tinha que ser! Olha aí, pobre, preta, tatuada e drogada! Isso não é eclampsia, é droga!” fala atribuída ao anestesista que foi chamado durante a madrugada (plantão de sobreaviso) para atender a uma cesárea de emergência de uma gestante adolescente com eclampsia cujo parceiro estava preso por tráfico de drogas. Maternidade Pró-Matre, Vitória-ES (Fragmentos do Dossiê).
A violação dos Direitos Sexuais e Reprodutivos corresponde à limitação de oportunidades na vida das mulheres, tanto na esfera pública como na esfera privada – e também podem culminar, muitas vezes, na morte e na aquisição de agravos que poderiam ser evitadas.
A violência institucional, e neste caso tipificada pela violência obstétrica, prejudica o acesso das mulheres aos serviços de saúde, o que pode levar a morbimortalidade materna.
O espaço do cuidado e da assistência à saúde, assim como os seus profissionais, deveriam garantir minimamente que as mulheres tivessem os seus riscos de adoecer e morrer reduzidos, no entanto por conta de uma estrutura de sociedade opressora, desigual e preconceituosa coloca a vida das mulheres em risco a cada momento que elas entram nos serviços de saúde.
Fonte:
LEAL, Maria do Carmo et al. Intervenções obstétricas durante o trabalho de parto e parto em mulheres brasileiras de risco habitual. Cad. Saúde Pública [online]. 2014, vol.30, suppl.1
Parto do Princípio Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa. Dossiê da Violência Obstétrica “Parirás com dor”. Dossiê elaborado para a CPMI da Violência Contra as Mulheres, Brasília, 2012.