quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

MÃE PRETA PODE SER? MULHERES NEGRAS E MATERNIDADE

Emanuelle Goes para a Revista Afirmativa

Peso e medida
Mãe preta, pode ser?
Dose de humanidade essa maternidade
Pra mãe preta é sempre uma batalha de vida
No sexo desejada, estuprada
No caminho uma gravidez abortada
Caso filho no mundo joga na roda
 Assegura o leite da brancada
Em tempos de agora
Mãe preta tem a sua humanidade conquistada?
Posta em risco e anulada
Quando esterilizam seu ventre, filho único
Ouro de Mina
A polícia assassina
Volta à estaca zero
Mãe do verbo presente
Insistente
Ele só tem 16 anos!

Débora Silva Maria, do Movimento Mães de Maio, há 10 anos organizadas, o movimento é uma das frentes mais fortes na luta contra o genocídio do povo negro no Brasil
 Foto: Arquivo Pessoal

A maternidade como uma das dimensões da humanidade alcançada, as mulheres negras ainda não sabem o que é isso. Há muito tempo este texto passeia na minha cabeça, mas para escrevê-lo foi preciso sentir que era a hora, não sei se é a hora, mas agora faço.

Gravidez, esterilização, aborto, parto, morte materna e direitos reprodutivos. Juventude negra, mães de maio, violência policial, genocídio, mãe que não dorme e direitos humanos. Estes são alguns pontos que atingem a maternidade das mulheres negras.

As mulheres negras sob a ótica do racismo e do sexismo sempre foram vistas como um objeto sexualizado e estéril, vide ai o termo mulata, e quando mais velha era a mãe preta que cuidava dos filhos das pessoas brancas, neste caso maternidade transferida. A imagem das mulheres negras como mulata é de um objeto erótico que quase nunca vivencia a maternidade.

As mulheres negras fazem parte do imaginário da erotização e do sexo, sendo naturalizadas ou relegadas ao “mercado do sexo”, em contraposição às mulheres brancas que nesse mesmo imaginário, marcado por uma hierarquização racial e gênero, são pertencentes à “cultura do afetivo”, ao “mercado matrimonial”, ou seja, preferíveis para o casamento e uma união estável (Pacheco, 2013) e (Souzas e Alvarenga, 2007) e consequentemente a maternidade.

Torna-se mãe para as mulheres negras parece missão quase impossível, pois o racismo que hierarquiza a reprodução e a maternidade concedida só se for transferida - babas, mães ou amas de leite.


VIVENCIANDO A MATERNIDADE NA HIERARQUIZAÇÃO REPRODUTIVA

Os direitos reprodutivos para as mulheres negras é um horizonte que não conseguiremos alcançar, se não for por meio da justiça reprodutiva que amplia o olhar sobre os direitos humanos e sociais, para que possamos alcançar o ambiente da decisão e da autonomia, de não ter filhos, mas de ter também. Sempre tentaram nos levar a não-reprodução, visto a esterilização em massa que aconteceu na década de 80/90.

O percurso de uma gestação para as mulheres negras é carregado de violências institucionais, raciais e obstétricas, como no processo de não aceitação sobre a gravidez, “mais uma pessoa negra no mundo”, tudo é feito para a gestante negra desistir, não tem parto humanizado para que não é considerada humana.

As mulheres negras peregrinam na hora do parto, ficaram mais tempo em espera para serem atendidas, tem menos tempo de consulta, estão submetidas a procedimentos dolorosos sem analgesia, estão em maior risco de morte materna. São cerca de 60% das mulheres que morrem nesta situação.

Recordo aqui uma situação em que o Governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral (2007), que defendia a legalização do aborto como forma de prevenção e contenção da violência, por considerar que a fertilidade das mulheres das favelas cariocas as torna fábrica de produzir marginais, apresentando assim uma proposta de política eivada de ideologia eugenista destinada à interrupção do nascimento de seres humanos considerados potenciais marginais (Sueli Carneiro, 2011).


MÃE PRETA, MÃE DO VERBO PRESENTE

Para ilustrar sobre o que estou falando, apresento o filme Historias Cruzadas em que a personagem Aibileen Clark (Viola Davis, 2011), era uma mulher que vivia sozinha e que cuidava, educava e dedicava a sua maternidade para as crianças brancas nas casas que ela trabalhava, e o único filho dela havia sido assassinado ainda jovem.

As mãe que perdem seus filhos para o sistema racista que são assassinados diariamente pela polícia, a partir deste ponto em que não se tem mas o filho presente, “vivo para elas sempre”, vem a luta pela dignidade da pessoa – dela, do filho e da família, neste momento a história universal sobre ser mãe não cabe para as mães negras.

E agora essa mulher é uma pessoa adoecida, violentada, violada na sua suposta humanidade e precisa dar conta disso. O filme Lile e Eve (2014), com as atrizes Viola Davis e Jennifer Lopez apresenta para nós essa questão, a luta por justiça e o adoecimento das mulheres que a partir de agora seguem este tortuoso caminho.

Estima que mais de 42 mil adolescentes de 12 a 18 anos poderão ser vítimas de homicídio nos municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes entre 2013 e 2019 (UNICEF). E dos 30.000 jovens vítimas de homicídios por ano, 77% são negros.

Paro por aqui. Escrevo este artigo com muito pesar na alma, tema difícil, os números saltam das estatísticas e vira cada uma e cada um de nós! Para tudo isso não há recomendações, conclusões e nem considerações somente resistência, luto que vira luta!

“– A gente combinamos de não morrer. – Deve haver uma maneira de não morrer tão cedo e de viver uma vida menos cruel” Conceição Evaristo (Olhos d’agua)


* Emanuelle Góes é enfermeira, blogueira, coordenadora de saúde do Odara Instituto da Mulher Negra, doutoranda em Saúde Pública ISC/UFBA

REFERENCIAS:

Pacheco, A. C. L. Mulher negra: Afetividade e solidão. Salvador: EdUFBA, 2013.
Souzas, R.; Alvarenga, A. T. DE. Direitos sexuais, direitos reprodutivos: concepções de mulheres negras e brancas sobre liberdade. Saúde e Sociedade, v. 16, n. 2, p. 125–132, 2007
Carneiro, Sueli. Racismo, Sexismo e Desigualdade No Brasil - Col. Consciência Em Debate, 2011.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Sozinha eu ando bem, mas com voce ando melhor




*Por Emanuelle Goes para Conexões Futuros 


Mulheres negras e um ilá
Vozes que por vezes ecoou secretamente
Vozes que por vezes ecoou no cochilo da negação
Em tempos de agora
A voz que não se cala
Estende-se ao corpo que também fala
Traz uma geração inteira
Atravessa vários muros e mundos
É o ilá de quem não dorme

© Claudia Ferreira

A interseccionalidade como ferramenta, este é o primeiro passo para os Futuros Feministas.

Suas dimensões foi a experiência vivida no Fórum AWID, as diversidades de mulheres e suas demandas, assim como as formas e estratégias de lutas foi o maior aprendizado e de quanto estamos conectadas pelas lutas e pela ancestralidade.
Muitas águas corriam nos espaços do Fórum Awid, a ancestralidade se fazia presente, na luta, na resistência e na dança, daí entendi que “A minha ancestralidade dança na revolução”.
A ancestralidade feminina é feminista e nos abarca em todas as nossas diferenças e interseccionalidades, quando vejo o mundo só encontro esse caminho para a realização de sonhos de um mundo menos desigual, livre de todas as formas de opressão, no entendimento que somos diversas com singularidades da corporeidade e do lugar.
Pois é isso para que vejamos o ser humano na sua dimensão integral é preciso ver primeiro o que compõe aquele corpo, Kimberlé Crenshaw diz que a interseccionalidade não é uma visão holística de identidades, mas uma visão das múltiplas fontes de identidade quando se pensa sobre a construção da esfera social e política.

Me abrigo nos braços de minha irmã (Sisterhood) - Para nós, por nós e entre nós

Jurema Werneck no encerramento do Fórum nos apresenta uma demanda e diz: "É preciso fazer conexões, para darmos o próximo passo”, para mim este foi o principal produto/fruto /resultado do fórum, compromisso de fazer conexões com as mulheres no mundo, compromisso de irmanar com as mulheres do mundo a dor que atinge a cada uma. E se a luta é coletiva, a dor, o amor e a cura também são. A irmandade cura a dor da alma e nos salva.  Não estamos sós.
Parto do entendimento que o retrocesso que estamos vivendo na atualidade, sobre a violação de direitos conquistados e os avanços das violências de diversas ordens que nos atinge aqui no Brasil e em outras partes do mundo, tem a ver conosco, e é sobre nós.
O Feminismo é luta coletiva, o Feminismo Negro cabe todo mundo pois é interseccional. Finalizo com um grito, um hino, um desabafo das jovens feministas: “Companheira me ajude que eu não posso andar só, eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor!”.
O Forum Awid ampliando as vozes das mulheres no mundo, pois o mais importante na luta feminista negra, sobretudo, é ser ouvida em primeira pessoa.

*Blogueira, Enfermeira, Coordenadora do Programa de Saúde das Mulheres Negras – Odara Instituto da Mulher Negra, Doutoranda em Saúde Pública (ISC/UFBA).

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A nossa dor não sai no jornal: Mulheres Negras e a epidemia do Zika vírus, um ano depois


Emanuelle Goes para Cientistas Feministas



Há mais ou menos um ano nos deparamos com um novo tipo de vírus, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo que transmite a dengue e a chikungunya, e a descoberta ocorreu por conta do nascimento de crianças com o perímetro cefálico menor (microcefalia) que a medida padrão.
A ocorrência da microcefalia surgia no mesmo momento e nos mesmos lugares onde havia a epidemia do zika vírus, no nordeste do País, mais precisamente em Pernambuco e na Bahia. Desde então pesquisas vem sendo feita para identificar a causalidade entre o zika vírus e os recém-nascidos com microcefalia.
“A epidemia de microcefalia registrada no Brasil em 2015 é resultado de infecção congênita da mãe para o bebê por zika”. A conclusão é de um estudo caso­controle preliminar do Microcephaly Epidemic Research Group (MERG), publicado na revista científica The Lancet Infectious Diseases, intitulada “Association between Zika Virus infection and microcephaly in Brazil, January to May 2016: Preliminary report of a case control study”. A pesquisa ainda aponta sobre o que virá “uma epidemia global de microcefalia e outras manifestações da Síndrome Congênita do Zika.”
De acordo com o informe epidemiológico do Ministério da Saúde nº. 48, até 15 de outubro de 2016 havia 9.862 casos notificados para microcefalia e/ou outras alterações do sistema nervoso central, sendo 2063 confirmados: Nordeste apresentou mais da metade dos casos (1650), Sudeste (219), Centro-Oeste (107), Norte (68), Sul (19).
No entanto, mesmo diante de uma situação que abala a saúde pública do País, ainda não foram realizadas medidas que de fato mudassem o cenário até o momento, como saneamento básico, promoção da saúde, saúde reprodutiva e informações suficientes à população sobre a epidemia e forma de transmissão do vírus. O que observamos é um silenciamento da grande mídia e dos órgãos de governo responsáveis.
Quem são as pessoas que tem as suas vidas mais prejudicadas pelo zika vírus e suas consequências? São mulheres em idade reprodutiva, do nordeste do Brasil, em situação de pobreza e negras em sua maioria. Essas mulheres moram em situações inadequadas, com acesso irregular a serviços de saneamento básico, ambiente este que colabora para o desenvolvimento de doenças transmitidas pelo mosquito Aedes (Figura 1).
figura-1
Fonte de Dados: Atlas de Desenvolvimento Humano/PNUD (2010)
De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), os Estados do Nordeste estão nas últimas colocações do Ranking nacional. Com destaque para Pernambuco em 19º lugar e a Bahia em 22º, os dois estados onde ocorreram mais casos de zika vírus e microcefalia.
Os dados sobre a situação das mulheres como chefe de família do Atlas de Desenvolvimento Humano, apresentam que as mulheres da Bahia e Pernambuco tem um maior percentual como chefia de família, quando comparamos Brasil, São Paulo e Santa Catarina, destaco que estes dois estados estão os três primeiros no Ranking do IDH (Figura 2).
figura-2
Fonte de Dados: Atlas de Desenvolvimento Humano/PNUD (2010)
O que estamos observando, escutando as mulheres, é que as mães dos filhos com microcefalia estão assumindo grande parte de todo o processo de cuidado, tendo que acompanhar os seus filhos nos atendimentos das redes de serviços, comprometendo toda a sua rotina de vida e trabalho.
A epidemia deste vírus e a negligência do Estado na sua desatenção ou no seu investimento insuficiente podem ser pensado como um case de racismo institucional e ambiental. Racismo Institucional trata-se da falha coletiva de uma organização em fornecer um serviço adequado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica (SANTOS, 2001)Racismo Ambiental é o aprofundamento da estratificação de pessoas (raça, cor e etnia) e de lugar (nas cidades, bairros periféricos, áreas rurais entre outros) (SANTANA FILHO; ROCHA, 2008).
No que se refere aos direitos reprodutivos, a falta de acesso à saúde para um planejamento reprodutivo, por meio de informações e métodos contraceptivos, também é outra realidade, e são as mulheres negras do Nordeste que têm menos acesso aos métodos (Tabela 3). Pesquisas  já apontam que o vírus também é de transmissão sexual (Centro de Controle de Doenças e Prevenção (CDC)), possivelmente serão as mulheres negras e em situação de pobreza as mais expostas a essa situação, pois estão mais vulneráveis a desinformação sobre o uso de preservativos para a proteção contra o vírus..
figura-3
Fonte de Dados: Pesquisa Nacional de Saúde/IBGE (2013)

Pela Vida das Mulheres
O movimento de mulheres e de mulheres negras vem atuando frente à epidemia do zika vírus, participando de diálogos junto a Nações Unidas e atuando nas comunidades com projetos de intervenção com a finalidade de ampliar a informação pelo direito à saúde.
Em Março deste ano, Jurema Werneck elaborou um Boletim sobre o impacto da epidemia chamando atenção para as mulheres negras, que seria a população mais exposta as consequências do vírus. Além disso, apresentou 10 pontos reivindicando o direito a saúde e pelo bem viver (Boletim Epidemia de Zika e Mulheres Negras).
O grupo de pesquisa Anis, liderado pela pesquisadora Debora Diniz, apresenta juntamente com a Associação Nacional dos Defensores Públicos – ANADEP uma ação no Supremo Tribunal Federal sobre a proteção de direitos violados na emergência de saúde pública do vírus zika.
Há muitas incertezas sobre o zika vírus e as suas consequências nas crianças com a síndrome congênita, mas o que sabemos é que são as mulheres em idade reprodutiva, negras do nordeste que estão no centro da epidemia e na margem da sociedade e das políticas públicas. Essa situação nos coloca diante de novas lutas para a garantia dos direitos das mulheres e dessa nova população que chega. E com este cenário político que se instala de usurpação de direitos sociais, políticos e humanos convergem para a invisibilidade, a desatenção e a violação do direito humano à saúde desta população.
Referencias
SANTOS, H. A busca de um caminho para o Brasil : a trilha do círculo vicioso. [s.l.] Editora SENAC São Paulo, 2001.
SANTANA FILHO. Diosmar M. de. ROCHA, Júlio Cesar de Sá.  Justiça Ambiental da Águas e Racismo Ambiental. Justiça pelas águas: enfrentamento ao racismo ambiental – Salvador, Superintendência de Recursos Hídricos, 2008. p. 35
Links:
Leia também: 
*Blogueira, Enfermeira, Doutoranda em Saúde Pública (ISC/UFBA), Coordenadora do Programa de Saúde das Mulheres Negras – Odara Instituto da Mulher Negra, (emanuellegoes@gmail.com)