terça-feira, 14 de agosto de 2018

O Trabalho (de Parto) do Racismo


Por Dána-Ain Davis, Ph.D. em Antropologia, City University of New York
Traduzido por Eliza Williamson, M.A. em Antropologia, Rice University



Uma noite no início de 2018, uma doula amiga minha, Josie, que é branca, me enviou uma foto de uma mulher Negra sentada numa cadeira de rodas.  Doula é uma pessoa que fornece apoio durante a gravidez e os cuidados pós-parto. O nome da mulher era Michelle. Michelle era, além de cliente, amiga de Josie. A foto foi tirada quando ela chegou ao hospital porque estava em trabalho de parto. Michelle estava linda sentada na cadeira de rodas.

Ela estava sorrindo.

Josie me mandou a foto umas cinco horas depois que foi feita originalmente, porque ela estava tão angustiada com a maneira em que Michelle, que era beneficiária do Medicaid[1], tinha sido tratada durante o trabalho de parto e o parto. O que Josie descreveu foi o racismo obstétrico, que é quando uma mulher é desdenhada e os profissionais de saúde usam táticas de medo para controlá-la e forçá-la a cumprir com as ordens dos profissionais dentro do contexto de raça. No caso de Michelle, o racismo obstétrico assumiu a forma de um exame vaginal forçado e o ato de pegar o bebê agressivamente enquanto coroava. “Às vezes os profissionais de saúde estão machucando as pessoas de propósito,” disse Josie.

Ela era tão linda.

Josie me contou que Michelle estava provavelmente uns 8 centímetros dilatada quando chegou no hospital. Mas ao ser internada, lhe disseram a Michelle que estava com menos, o que justificou a administração de Pitocin, a versão sintética da ocitocina, um hormônio que é produzido naturalmente pelo corpo, que induz contrações.

Por ser beneficiária do Medicaid, Josie acredita que o pessoal do centro obstétrico disse à Michelle que só era permitida uma pessoa na sala com ela, eles fizeram ela escolher entre sua mãe e sua doula. “Ela me escolheu” Josie disse. Josie estava desconcertada porque ela esteve no mesmo hospital uma semana antes com uma cliente que pagava particular que tinha “seis pessoas na sua sala”.

Josie continuou, dizendo que no centro obstétrico, o médico colocou as pernas de Michelle em estribos, e repreendendo Michelle dizendo: “Eu não sabia que você ia ter uma doula. Por que não me falou?” Quando Michelle fez força, o médico, que era Negro, e as enfermeiras orientaram, para que ela parasse. Disseram a ela que havia um prolapso de cordão, que é quando a cabeça está muito alta e o cordão umbilical desce antes. Mas segundo com Josie, a bolsa de Michelle ainda não tinha estourado, então não podia ter um prolapso do cordão. Finalmente, Michelle pariu. E, embora não tivesse muito sangramento, o médico disse que tinha coágulos e inseriu a mão agressivamente para remover os coágulos. Introduzir a mão agressivamente após o parto pode causar infecção.


Josie disse que Michelle gritou, “Para! Para!”

No dia 11 de abril, a revista New York Times Magazine publicou um artigo, “Por quê as mães e bebês negros estão em uma crise de vida e morte” por Linda Villarosa. O artigo enfoca o racismo social e o preconceito racial no sistema de saúde e o papel que as doulas têm em ajudar as mulheres Negras a darem à luz. Só onze dias depois, no 22 de abril, Governador [de Nova Iorque] Cuomo anunciou que o Estado de Nova Iorque ia implementar um reembolso para o serviço de doulas. Foi uma conquista? Sim e não. Embora eu recentemente completasse o treinamento para ser doula, não acho que oferecer reembolso via Medicaid seja a principal resposta para o problema dos desfechos negativos das mulheres Negras no parto.

Já tinha ouvido outras histórias como as de Michelle, porque acabei de finalizar uma pesquisa examinando a gravidez, a prematuridade, e a raça no “pós-vida” (afterlife) da escravidão. As mulheres Negras têm as taxas mais altas de partos prematuros nos EUA, segundo a organização March of Dimes, e eu argumento que seus desfechos negativos são afligidos pelos vestígios do passado. Algumas das suas experiências em saúde refletem o que Saidiya Hartman chama da pós-vida da escravidão que são oportunidades de vida assimétricas, como o acesso limitado à saúde e educação, a morte prematura, o encarceramento, e a pobreza (Hartman 2007:7). O tratamento que Michelle recebeu dos profissionais de saúde, que foram desrespeitosos e abusivos, exemplifica o pós-vida da escravidão, porque as mulheres Negras vivenciam tratamento semelhante no contemporâneo.

Realizando entrevistas com 47 pessoas — incluindo mães e pais com nível superior, doulas, parteiras (midwives), defensores de justiça no parto e nascimento, médicos, enfermeiras, assistentes sociais e o pessoal da March of Dimes entre 2011 e 2018 — revelou como as mulheres Negras veem o sistema de saúde durante suas gestações, partos e nascimentos. Mas, enquanto muitos culpabilizam fatores como a pobreza e a falta de recursos pelos desfechos negativos no parto, raramente o foco é posto nas práticas dos profissionais de saúde. Alguns partos são marcados por racismo que variam desde o desprezo da intuição das mulheres que algo está errado, até a realização de procedimentos que as mulheres não querem ou dos quais elas não são plenamente conscientes. Estas são as circunstâncias que refletem variações do racismo na saúde (medical racism) na forma de falhas diagnósticas e racismo obstétrico. O que as mulheres vivenciam é similar à “violência do cuidado” que Mulla utiliza para descrever as maneiras complexas nas quais as vítimas de estupro são re-vitimizadas no processo de cuidado (Mulla 2014).

O racismo que as mulheres descrevem é claramente conectado aos mecanismos ideológicos e políticos nos quais a estratificação da reprodução, isto é, as maneiras diferenciadas em que certas pessoas são estimuladas a se reproduzirem e outras não, é replicada (Colen 1995). Em outras palavras, a reprodução das mulheres Negras — por conta do racismo historicamente constituído, incluindo a reprodução forçada para sustentar a economia, a exploração reprodutiva como a esterilização e o uso dos corpos negros como “material clínico” (Washington 2006) — é comprometida ou desencorajada.

No entanto, os desfechos negativos no parto de mulheres Negras continuam aumentando e simultaneamente resultam em lucro, porque o Complexo Tecnológico Médico (CTM) é infundido com a inovação tecnológica que comanda e absorve capital, mas não busca práticas que podem reduzir desfechos desiguais com respeito a raça. Ao invés disso, o CTM desenvolve tecnologias cada vez mais sofisticadas que impulsionam sua utilização. Em outras palavras, a tecnologia se torna sua própria justificativa.

Enquanto alguns aplaudem o anúncio do Governador em apoio às doulas no estado de Nova Iorque para reduzir a mortalidade materna Negra, não sejamos enganadas ao ponto de esquecer que alguns desfechos no parto resultam do racismo na prática. Sem insistir em mudanças estruturais no CTM, como oferecer reembolsos melhores para menos intervenções, e sem apoiar estratégias preventivas, o racismo não será interrompido. A doula de Michelle, Josie, estava presente e forneceu apoio, mas Josie não pôde prevenir que o médico e as enfermeiras tratassem a Michelle desumanamente. Embora, como doula, Josie pode e deve estar na sala de parto, o racismo na saúde não tem lugar ali.


Referências

Colen, Shellie. 1995. “‘Like a Mother to Them’: Stratified Reproduction and West Indian Childcare Workers and Employers in New York.” Em Conceiving the New World Order: The Global Politics of Reproduction. Faye D. Ginsburg e Rayna Rapp, organizadoras. Berkeley, CA: University of California Press.

Ferré-Sadurní, Luis. 2018. “New York to Expand Use of Doulas to Reduce Childbirth Deaths.” New York Times, 22 de abril.

Hartman, Saidiya. 2008. Lose Your Mother: A Journey Along the Atlantic Slave Route. New York: Farrar, Strauss, Giroux.

Mulla, Sameena. 2014. The Violence of Care: Rape Victims, Forensic Nurses, and Sexual Assault Intervention. New York: New York University Press.

Washington, Harriet. 2006. Medical Apartheid: The Dark History of Medical Experimentation on Black Americans from Colonial Times to the Present. New York: Anchor Books.

Villarosa, Linda. 2018. “Why America’s Black Mothers and Babies are in a Life-or-Death Crisis.” New York Times, 11 de abril.


Dána-Ain Davis, MPH, PhD é a Diretora do Centro para o Estudo de Mulheres e Sociedade e faz parte do corpo docente do programa de doutorado em antropologia no Graduate Center, CUNY. Os interesses de pesquisa de Davis incluem gênero, raça e economia política, e etnografia feminista. O seu manuscrito, Pregnancy, Prematurity and Race in the Afterlife of Slavery (Gravidez, Prematuridade e Raça no Pós-vida da Escravidão), está programado para publicação no início de 2019.


[1] O Medicaid é um programa do governo estadunidense que fornece cobertura de saúde para pessoas de baixa renda, algumas mulheres grávidas e seus filhos, pessoas idosas e pessoas com deficiências, entre outros grupos. No pensamento popular leva um estigma por ser associado com camadas baixas da sociedade estadunidense, população que, por causa do racismo estrutural do país, tem grandes números de pessoas Negras.


segunda-feira, 9 de julho de 2018

Legalização do aborto, uma luta das mulheres negras


 Emanuelle Góes

O aborto inseguro é uma realidade que persegue o cotidiano das mulheres em suas trajetórias reprodutivas, cerca de 22 milhões de abortos inseguros ocorrem todo ano no mundo, e estima-se que 47 mil mulheres morram anualmente de complicações decorrentes do recurso a práticas inseguras para a interrupção da gravidez, é o que informa a Organização Mundial de Saúde.  Só para recordar, aborto inseguro é definido como um procedimento para interromper a gravidez não planejada/pretendida realizada por pessoas sem as habilidades necessárias, em um ambiente que não esteja em conformidade com mínimos padrões médicos, ou ambos, sendo ainda é uma das principais causas de morte materna. 

Apesar do aborto clandestino ser um evento que atinge todas as mulheres independente da classe, raça/cor, idade, região e religião quando inseguro (com complicações como infecções e hemorragias graves) se apresenta de forma mais cruel para as mulheres negras e de periferia, pois o risco de morte materna por aborto no Brasil é quase três vezes maior para as mulheres negras que para as mulheres brancas.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saude/IBGE (2013) são as mulheres negras que mais declaram os abortos tanto espontâneo (17,9% negras; 12,3% brancas) quanto provocado (2,4% negras; 1,7% brancas), e quando interseccionam com região e nível de instrução observa-se um aumento para 4,5% para as negras com nível fundamental completo e médio incompleto do nordeste. No entanto, por ser criminalizado a informação sobre aborto provocado é subestimado, ou as mulheres negam ou dizem que foi espontâneo.

A tese Racismo e Aborto (GOES, 2018) revela que as mulheres pretas são as que mais declaram aborto provocado (31,1%), seguida das pardas (24,2%) e das brancas (21%), o inquérito entrevistou mulheres em situação de abortamento em três capitais do Nordeste. No estudo também identifica que são as mulheres pretas foram as que mais informaram a gravidez como não pretendida: mais assumiram que não queriam engravidar, estavam em uso de contraceptivos, mais pensaram em fazer um aborto e o declararam como provocado na gravidez atual e em anteriores.

O contexto de desigualdades estruturado pelo racismo colocam as mulheres negras em maior situação de vulnerabilidade, ao mesmo tempo, impede a autonomia e tomada de decisão no exercício reprodutivo. No documento preparatório para a Conferência Mundial de População e Desenvolvimento de Cairo/94, a “Declaração de Itapecerica da Serra" o movimento de mulheres negras declarara que a liberdade reprodutiva era essencial para as etnias discriminadas e reivindicou do Estado brasileiro a garantia dos direitos reprodutivos, assegurando condições para a manutenção da vida com condições necessárias para que as mulheres negras pudessem exercer a sua sexualidade e seus direitos reprodutivos controlando a sua própria fecundidade, decidindo se querem ou não ter filhos¹.

Com isso, torna-se necessário considerar a dimensão da justiça reprodutiva como uma perspectiva mais ampla com o entendimento de que as mulheres negras experimentam e vivenciam um conjunto complexo de opressões e hierarquias reprodutivas. Segundo Loreta Ross (2006) a justiça reprodutiva baseia-se na compreensão de que os impactos das opressões de raça, classe e de gênero não são aditivos, mas integrativos e seus entrelaçamentos produz o paradigma da interseccionalidade, gerando a discriminação interseccional.

Por exemplo, as mulheres em situação de abortamento inseguro, geralmente, precisam de internação hospitalar para finalizar o aborto, e neste processo que as mulheres sofrem violências institucionais por conta do estigma do aborto, as mulheres negras experimentam situações distintas. São as que mais relatam medo de ser maltradas na busca por cuidados, fator este que retarda a procura pelo serviço, levando a uma situação limite quando se leva em consideração os riscos de um aborto inseguro. São as negras também, sobretudo as de pele mais escura, que apresentam mais dificuldades institucionais (“esperar muito para ser atendida”, “aguardar vaga/leito”, “parturientes eram atendidas primeiro”). Neste sentido, o racismo institucional com estigma do aborto redobram o risco das mulheres negras de sofrerem violência obstétrica, podendo levar a uma morbimortalidade materna (Goes, 2018).  

Os dados do Sistema de Morbidade Hospitalar do Ministério da Saúde revela que no ano de 2016 houveram 195.860 internações por consequências do aborto e 62,4% das mulheres eram negras. A Figura 1 demonstra também a intersecção com a idade, o percentual entre as mais jovens se apresenta maior para as negras e depois inverte sendo as brancas mais velhas, em relação a idade, os grupos etários mais jovens são mais vulneráveis as complicações do aborto inseguro.


O racismo afeta a forma como as mulheres negras vivenciam os seus eventos reprodutivos, configurando cenários desfavoráveis na gravidez e, diante da sua decisão pela sua interrupção, dificultando a busca pelo cuidado, o acesso e utilização do serviço para a finalização do aborto.  

Neste sentido, as reivindicações pela legalização do aborto não podem estar desassociadas do enfrentamento ao racismo que estrutura a nossa sociedade nas suas diversas formas, e que impede que as mulheres negras exerçam de direitos reprodutivos com justiça social, quer na escolha de ter filhos e vê-los crescer de forma segura, quer para realizar aborto sem riscos.

A luta pela legalização do aborto é pela vida das mulheres negras e pelo direito de existir na plenitude, porque nossas vidas importam.

REFERENCIAS:
Goes, Emanuelle Freitas. Racismo, aborto e atenção à saúde: uma perspectiva interseccional. 105f. Tese (Doutorado Saúde Pública) – Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2018.

Ross, L. 2006. “Understanding Reproductive Justice.” Atlanta, Georgia: SisterSong. http://www.trustblackwomen.org/our-work/what-is-reproductive-justice/9-what-is-reproductive-justice

¹Documento preparatório para a Conferência Mundial de População e Desenvolvimento de Cairo/94, a “Declaração de Itapecerica da Serra". https://www.geledes.org.br/programa-de-saude-memoria-institucional-de-geledes/