segunda-feira, 4 de junho de 2018

Deixem nossas meninas: Casamento Infantil, sexismo e racismo


Por Emanuelle Goes para Blogueiras Negra



O casamento infantil é uma realidade ainda presente na vida de muitas meninas e adolescentes no mundo, faz parte do conjunto de violações direitos humanos e das mulheres, no âmbito dos direitos sexuais e direitos reprodutivos e que junto com mutilação genital, estupro e assédio sexual e gravidez na adolescência atinge, prioritariamente, meninas e adolescentes negras, pobres e que vivem longe dos centros urbanos.



Segundo as Nações Unidas, a América Latina e o Caribe já temos uma década perdida para acabar com o casamento infantil. Pois, esta é a única região do mundo onde a prevalência do casamento infantil e da união precoce não diminuiu nos últimos dez anos, sem estratégias para a modificação deste cenário até 2030 serão quase 20 milhões de meninas com casamentos na infância. América Latina e Caribe: uma década perdida para acabar com o casamento infantil

E o Brasil, mesmo sem uma cultura formal para o casamento infantil, ocupa a liderança na America Latina e tem o 4º maior índice global em números absolutos. Cerca de 3 milhões de jovens de 20 a 24 anos tiveram o matrimônio formalizado antes da maioridade no país. O número representa 36% do total de mulheres casadas dessa faixa etária.

 
O patriarcado incide sob o corpo e a vida das mulheres e o casamento infantil é uma das suas diversas manifestações. No entanto, os marcadores de opressões como o racismo, o sexismo, a classe entre outros e suas interações/intersecções determinam a exposição das meninas e adolescentes a este tipo abuso/violência que se redobram, potencializam e retroalimentam. 

terça-feira, 29 de maio de 2018

O racismo desequilibra, fere e pode matar



Fernanda Lopes[1]



Nas ultimas décadas foram registrados vários avanços em relação à melhoria das condições de vida e saúde das mulheres no Brasil. No entanto, os avanços não têm sido vivenciados pelas mulheres da mesma forma. Há desigualdades no acesso aos benefícios materiais e simbólicos que estariam potencialmente disponível no território nacional.


Foto: Sô Fotocoletivo| http://agenciaplano.com/politica/marielle-presente/
Sabemos que as condições de saúde, adoecimento e morte não são obras do destino e sim determinadas por fatores econômicos, sociais, culturais, ambientais,  políticos, além dos biológicos[i]. Olhando por este prisma, é fácil compreender que algumas das desigualdades experimentadas por grupos femininos não se justificam no tempo e no espaço, ou seja, existem e persistem em decorrência de injustiças e de violação de direitos.


No Brasil as condições de vida e saúde de mulheres negras em diferentes momentos do curso de suas vidas são evidências expressivas das iniquidades em saúde (desigualdades que, além de sistemáticas e relevantes, são também evitáveis, injustas e desnecessárias). Esta situação ocorre em função da existência e operação do racismo em suas diferentes expressões, dentre as quais gostaria de dar destaque a três: racismo estrutural, interpessoal e institucional. As evidencias estarão relacionadas à saúde das mulheres, com ênfase nos Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, em alusão ao Dia Internacional pela Saúde das Mulheres e Dia Nacional pela Redução das Mortes Maternas, ambos celebrados em 28 de maio.  

quinta-feira, 17 de maio de 2018

“Sims era um salvador ou um sádico? Depende da cor das mulheres que você pergunta”




Emanuelle Góes para Cientistas Feministas 

Quem faz a pergunta e resposta que dão título a este texto é a pesquisadora Harriet Washington no seu estudo sobre racismo na saúde nos Estados Unidos da América que gerou como resultado o livro Medical Apartheid (2007).


Credito: Howard Simmons/New York Daily News
No último mês de abril ativistas e militantes do movimento de mulheres negras dos EUA tiveram uma vitória simbólica, que da estátua de Dr. Sims foi removida do Central Park, Nova Iorque, chamado de “pai da ginecologia moderna” o cirurgião que utilizava as mulheres negras escravizadas como cobaias nos seus experimentos. No entanto, infelizmente, não foi somente Sims que, na história da medicina e da saúde, utilizou os corpos negros para realização de experimentos, fazendo-os cobaias da humanidade.


Estudo da Sífilis Não-Tratada de Tuskegee (Alabama/EUA) foi também um dos casos de uso da população negra como cobaias. Durante o período de 1932 a 1972, foi realizado um ensaio clínico no qual 399 homens negros com sífilis foram usados como cobaias na observação da progressão natural da sífilis sem medicamentos. Os doentes envolvidos não eram informados sobre seu diagnóstico e jamais deram seu consentimento para participar da experiência. Eles recebiam apenas informação que eram portadores de “sangue ruim”, e que se participassem do programa receberiam tratamento médico gratuito, transporte para a clínica, refeições gratuitas e a cobertura das despesas de funeral.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Como o Parto Natural virou Inacessível aos Pobres


Por: Rosalynn Vega, PhD (antropóloga)
Traduzido por: Eliza Williamson, MA (antropóloga)

Enquanto as classes média e alta do México estão descobrindo as maravilhas do nascimento natural, as parteiras indígenas tradicionais estão sendo ativamente desencorajadas a fornecer os mesmos serviços às classes mais baixas.


Most traditional midwives offer extensive prenatal services. PWRDF/Flickr

Pilar* deu à luz em um hospital privado e “humanizado” na Cidade do México que tem uma abordagem holística à saúde e combina medicina de alta qualidade com os confortos de um hotel cinco estrelas. As paredes exteriores do hospital estão cobertas de hera, os pisos são de mármore, e música tranquilizante de um piano frequentemente ecoa no foyer multinivelado. Hóspedes são servidos comida orgânica. Os banheiros vêm com roupão de tecido felpudo bordado com o emblema do hospital, e as pontas do papel higiênico estão cuidadosamente dobrados em triângulos. Quando eu a entrevistei, Pilar me contou sobre o seu parto prazeroso na água em um dos jacuzzis do hospital.

Mas em uma aldeia que parece um mundo aparte da realidade de Pilar, a experiência de parto de Lupita deixou uma mancha escura na sua memória e uma dor no coração. Quando ela percebeu que estava na hora de parir, ela buscou a ajuda da parteira da aldeia, Leonila—uma mulher idosa que usa as técnicas tradicionais mexicanas para trazer as crianças ao mundo há gerações. Recentemente, Leonila tinha assistido uma oficina obrigatória do governo onde ela e outras parteiras foram informadas sobre potenciais emergências obstétricas que podem ocorrer durante o processo de parto, e foram orientadas a transferir todos os partos para o hospital regional. Assim que Lupita e a sua família subiram em um camioneta, que se arrastou ao longo de um caminho ventoso e irregular da montanha.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Por que mulheres negras são as que mais morrem na gravidez e no parto?

 por Isabela Cavalcante no Metropoles

A tenista Serena Williams escancarou os dados relacionando racismo e mortalidade materna nos EUA. No Brasil, a realidade não é diferente

Vanity Fair/Divilgação
Vanity Fair/Divilgação
Serena Williams emocionou os seguidores de suas redes sociais após falar das dificuldades sofridas no pós-parto. A tenista, de 36 anos, deu a luz ano passado a sua primeira filha e quase morreu devido a uma embolia pulmonar.
Ao tentar alertar os médicos, a americana foi tratada com descaso até conseguir o devido tratamento. A situação motivou a atleta a divulgar sua história e falar sobre racismo e as estatísticas de mortalidade no parto.
A atleta disse que teve sorte de ter acesso à saúde de qualidade, diferente de outras mulheres negras. “Os médicos não nos escutam, para ser franca. Talvez esteja na hora de ficarmos confortáveis em ter conversas desconfortáveis. Tem muito preconceito na situação, isso precisa ser resolvido”, contou.
Nos Estados Unidos, mulheres negras têm três vezes mais chances de morrerem devido ao parto. No Brasil, 60% das vítimas de mortalidade materna são negras (pretas e pardas) e 34% são brancas, segundo o Ministério da Saúde. Os números refletem o óbito durante a gravidez, o parto e o aborto.