quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Violência obstétrica e o viés racial

Emanuelle Goes para Cientistas Feministas
As mulheres sofrem violência tanto no parto, quanto na situação de abortamento. Mesmo as que dão “a luz” não estão salvas de serem violentadas institucionalmente. Porque na verdade o grande problema é o SER, mulher negra jovem de periferia, estas categorias sociais/identitárias definem ou ajudam muito na decisão do profissional de como serão tratadas as pessoas que acessam os serviços de saúde.
828a7d0edf4e916f1971d08221068324A violência obstétrica caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda de autonomia e a capacidade de decidir sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres. Essa e a definição dada pelos Estados da Venezuela e da Argentina, onde a Violência Obstétrica é tipificada.  (Defensoria do Estado SP).
Segundo o Dossiê elaborado pela Rede Parto do Princípio para a CPMI da Violência Contra as Mulheres os atos caracterizadores da violência obstétrica são todos aqueles praticados contra a mulher no exercício de sua saúde sexual e reprodutiva, podendo ser cometidos por profissionais de saúde, servidores públicos, profissionais técnico-administrativos de instituições públicas e privadas, bem como civis.
A Pesquisa Nascer no Brasil, realizada em 2014, apresenta dados interessantes sobre as intervenções durante o parto em mulheres de risco obstétrico habitual e boas práticas e o que o estudo mostra é que a infusão de ocitocina e ruptura artificial da membrana amniótica foi uma técnica muito utilizada para provocar a aceleração do trabalho de parto. Ambas ocorreram em cerca de 40% das mulheres de risco habitual, sendo mais frequente nas mulheres do setor público, de mais baixa escolaridade.
São as mulheres negras que mais sofrem violência obstétrica, pois são as que mais peregrinam na hora do parto, ficaram mais tempo em espera para serem atendidas, tem menos tempo de consulta, estão submetidas a procedimentos dolorosos sem analgesia, estão em maior risco de morte materna. Cerca de 60% das mulheres que morrem de morte materna são negras. É importante ressaltar que a morte materna é considerada uma morte prevenível e que em 90% dos casos poderia ser evitada se as mulheres tivessem atendimento adequando.
Sobre a morte materna, enquanto não enfrentamos o racismo institucional nos serviços de saúde e garantir a equidade entre mulheres negras e brancas o Brasil continuará a ter a alta taxa de mortalidade (63,9/100 mil nascidos vivos – 2013), neste sentido é importante destacar que o Brasil não a alcançou a meta do Objetivo do Desenvolvimento do Milênio sobre saúde materna, que deveria chegar no máximo de 35 óbitos por 100 mil nascidos vivos até 2015, mas, se por acaso o Brasil fosse de mulheres brancas (35,6/100 mil nascidos vivos – 2013); (mulheres negras foram de 62,8/100 mil nascidos vivos) a meta teria sido alcançada.
Violência obstétrica, racismo institucional e morte: Caso Rafaela Santos
Rafaela Cristina Souza dos Santos tinha 15 anos, morreu de morte materna após dar à luz em uma maternidade no Rio de Janeiro, em 2015. Houve negligência no atendimento à adolescente, que ficou por mais de cinco horas no hospital, sem atendimento de médico, queixou-se de dor de cabeça, houve insistência no parto normal, quando apresentou quadro de eclampsia, fizeram a cesárea tardiamente e Rafaela foi a óbito.
O Dossiê revela que a eclâmpsia, pré-eclâmpsia e os distúrbios hipertensivos afetam muito mais a população negra, sendo as maiores causas da mortalidade materna da população negra. Apesar disso, o médico não poupou seu diagnóstico com base em preconceito racial e socioeconômico. O racismo dos profissionais de saúde atrasa a decisão da mulher de buscar assistência, dificulta o acesso da mulher ao serviço de saúde, dificulta o acesso da mulher ao tratamento adequado.
“Tinha que ser! Olha aí, pobre, preta, tatuada e drogada! Isso não é eclampsia, é droga!” fala atribuída ao anestesista que foi chamado durante a madrugada (plantão de sobreaviso) para atender a uma cesárea de emergência de uma gestante adolescente com eclampsia cujo parceiro estava preso por tráfico de drogas. Maternidade Pró-Matre, Vitória-ES (Fragmentos do Dossiê).
A violação dos Direitos Sexuais e Reprodutivos corresponde à limitação de oportunidades na vida das mulheres, tanto na esfera pública como na esfera privada – e também podem culminar, muitas vezes, na morte e na aquisição de agravos que poderiam ser evitadas.
A violência institucional, e neste caso tipificada pela violência obstétrica, prejudica o acesso das mulheres aos serviços de saúde, o que pode levar a morbimortalidade materna.
O espaço do cuidado e da assistência à saúde, assim como os seus profissionais, deveriam garantir minimamente que as mulheres tivessem os seus riscos de adoecer e morrer reduzidos, no entanto por conta de uma estrutura de sociedade opressora, desigual e preconceituosa coloca a vida das mulheres em risco a cada momento que elas entram nos serviços de saúde.
Fonte:
LEAL, Maria do Carmo et al. Intervenções obstétricas durante o trabalho de parto e parto em mulheres brasileiras de risco habitual. Cad. Saúde Pública [online]. 2014, vol.30, suppl.1
Parto do Princípio Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa. Dossiê da Violência Obstétrica “Parirás com dor”. Dossiê elaborado para a CPMI da Violência Contra as Mulheres, Brasília, 2012.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Mulheres querem mais e melhores informações sobre a zika, diz pesquisa

Em meio a uma epidemia de zika no país, doença que provoca má formação fetal e problemas de desenvolvimento em bebês, mulheres e gestantes reclamam da falta de informação no sistema de saúde, público ou privado, e na imprensa. Para elas, que querem também políticas públicas para exterminar o vetor da doença, o mosquito Aedes aegypiti, e apoiá-las no tratamento, a mídia e os profissionais de saúde acabam gerando angústias ao difundir “sofrimento” e em não dar orientações relevantes.
As opiniões são de grávidas das classes C e D entrevistadas em São Paulo, Recife e João Pessoa, em abril, reunidas em pesquisa do Instituto Patrícia Galvão – Mídia e Direitos, em parceria com o Data Popular e apoio da ONU Mulheres, divulgada hoje (2), no Rio de Janeiro.

Poucas informações

Mosquito Aedes aegypti
Presquisa informa que as mulheres conhecem as formas de erradicar o mosquito transmissor da zika e de outras doençasArquivo/Agência Brasil

Segundo a pesquisa, mulheres buscam informações sobre a síndrome da zika congênita, que passa da mãe ao bebê, na barriga, mas mesmo nas unidades de saúde, três em cada dez não encontram. “[A consulta] é muito rápida, a maioria nem olha para sua barriga”, disse uma delas.
Muitas saem com dúvidas dos consultórios, sem saber, por exemplo, que podem pegar a doença durante toda a gestação e não apenas nos três primeiros meses – hipótese que chegou a ser cogitada cientificamente, mas já foi afastada – e que devem usar camisinha para evitar o contágio em relações sexuais, mesmo com o próprio parceiro – que pode ter sido picado pelo Aedes aegypti. Falta esclarecer também que a amamentação e vacinas não transmitem o vírus da zika.

Discriminação no atendimento

Na avaliação da médica e pesquisadora Jurema Werneck, da organização não governamental Criola, que foi consultora da ONU Mulheres, é preciso investigar mais por que as mulheres saem das consultas com dúvidas e sugere que há discriminação no atendimento.
“A pesquisa não diz isso claramente, mas cabe levantar, além dos problemas de baixa qualidade ética e humana de muitos profissionais [de saúde], no sentido da relação entre pessoas, no sistema público, privado ou conveniado, cabe ver o que influencia essa baixa qualidade de atendimento”, disse Jurema. “Algumas pesquisas já apontam que, por trás disso está o racismo, a questão geracional – boa parte das grávidas são jovens – e a questão de classe”.
As entrevistadas também confessaram que se sentem sozinhas e angustiadas por terem de se proteger da zika. Elas comentaram sobre a dificuldade de usar o repelente, que é caro e, muitas vezes, causa enjoo, roupas de mangas cumpridas, apesar do calor em algumas regiões, além de terem citado a dificuldade de convencer parceiros a usar preservativos.

Saneamento

Mesmo que faltem informações sobre a doença em si, a pesquisa confirma que as mulheres têm clareza sobre a origem da zika e as formas de erradicar o mosquito transmissor, vetor de outras doenças, como a dengue.
Mais do que campanhas de cuidados domésticos, elas querem, segundo a pesquisa, saneamento básico, água potável e coleta de lixo das prefeituras dos municípios onde habitam. Elas já constataram que as áreas com mais pessoas infectadas são aquelas mais pobres em suas cidades.
“As mulheres têm clareza que essa é uma epidemia que tem a ver com os determinantes sociais e de saúde, com responsabilidade dos governos municipais, que tem de fazer algo [para resolver os problemas da falta] de água, de saneamento [de coleta] de lixo”, disse a representante do Escritório da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, ao cobrar também mudanças na abordagem de saúde. “Dá para ver que há problemas de distanciamento [no atendimento]”.

Jornalismo no combate à zika

Para apontar caminhos, as entrevistadas cobram uma mudança de viés na cobertura jornalística da doença. Querem menos “sofrimento” das famílias nas telas, jornais, programas de rádios e sites de notícias e mais informações sobre como evitar e lidar com a doença.
“Eles [as mídias] mostram uma parte muito feia, expõem as crianças. Eu boto aquilo na cabeça e fico triste, angustiada. A gente se coloca no lugar das pessoas, daquela mãe, e dá um desespero”, desabafou uma delas.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Mulheres Negras e Aborto: Autonomia e Liberdade é tema de abertura da primeira edição do Sisterhood

O Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gênero, Raça e Saúde (NEGRAS) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) lança a primeira edição do Caderno Sisterhood. Com periodicidade semestral, a publicação acadêmica tem como objetivo contemplar temas de interesse da comunidade negra, particularmente temas pouco discutidos e polêmicos, que são abordados sob a perspectiva e o olhar de ativistas negras.
“O Sisterhood será um espaço para que as mulheres negras possam expressar as suas formas de ver o mundo por meio de diversas linguagens e manifestações culturais e políticas”, afirma, no editorial, Emanuelle Goes, membro do Odara - Instituto da Mulher Negra e uma das editoras da publicação. Para o primeiro número, ela explica que, além do chamamento público, foram convidadas mulheres negras que escrevem sobre o tema em blogs e revistas para colaborar com os artigos.
O tema de abertura é Mulheres Negras e Aborto: Autonomia e Liberdade. O Caderno apresenta, sob a perspectiva das mulheres negras, textos sobre o aborto desde a produção do conhecimento, a experiência vivida, o feminismo negro, a solidão durante a decisão e o percurso, o contexto da escravidão e do racismo, as redes sociais, o aborto clandestino e o luto vivido pelas mulheres que abortaram.
“É a primeira publicação em que mulheres negras têm registrada a questão do aborto sobre sua perspectiva e esta luta, neste campo de pesquisa, ainda invisibiliza as mulheres negras ao considerar o aborto como um tema universal”, diz Emanuelle.
Sobre o NEGRAS - é um grupo de estudo e pesquisa de natureza interdisciplinar que se propõe a discutir o processo saúde-adoecimento-cuidado, nas perspectivas de gênero e de raça. Como um de seus produtos, o Caderno Sisterhood tem o compromisso de incentivar e divulgar artigos científicos, resenhas, relatos de experiências, entrevistas e outras modalidades de produção que tenham como escopo a saúde da população negra e suas interfaces.
Confira a versão eletrônica do Caderno Sisterhood – 1ª edição.
Mais informações: www.ufrb.edu.br/negrasccs