domingo, 7 de agosto de 2011

Racismo prejudica acesso da população negra ao diagnóstico e tratamento da Aids

                         ENSP, publicada em 26/07/2011

Diferentes estudos apresentados durante o I Simpósio Nacional de Saúde na População Negra e HIV/Aids indicaram que a vulnerabilidade social dificulta o acesso da população negra ao diagnóstico e tratamento da Aids. Segundo Mário Lisboa Theodoro, do Instituto de Pesquisa e Estatística Aplicada (Ipea), é preciso acabar com o racismo institucionalizado. "Esse é o grande desafio. O racismo faz com que a saúde deixe de ser universal, uma vez que dificulta o acesso à saude e influencia na atenção necessária ao paciente", explicou. 

"Discriminação é caso de polícia. Racismo é caso de política: políticas públicas", acrescentou Mário. Para ele, a saída é criar ações afirmativas em diferentes ministérios. "Uma opção são as cotas. No Brasil, o caso mais em voga é a utilização do método para a seleção no ensino superior. Sou um defensor ardoroso dessa ideia". Segundo o integrante do Ipea, sempre existiram cotas no país. "Isso ocorre, por exemplo, quando um brasileiro faz pós-graduação no exterior fazendo uso de uma bolsa de estudo que conseguiu por ser latino-americano. Mas disso ninguém reclama. Existe resistência às cotas para negros, porque, se bem determinadas, vão abrir a possibilidade de a elite ser mais parecida com o restante do povo." Para Mário, a sociedade brasileira aceita o racismo. E não faltam dados que justifiquem esse argumento: cerca de 70% dos indigentes brasileiros são negros; o desemprego é até 40% maior para negros em relação aos brancos; e a escolaridade do negro é em média dois anos menor que a do branco, segundo o Ipea. Conheça algumas pesquisas Em Porto Alegre, a Associação Cultural de Mulheres Negras realizou não apenas abordagem quantitativa com 204 soropositivos usuários de um Serviço de Atendimento Especializado (SAE), como também com outras dez pessoas que não utilizam esse serviço. Foram avaliadas principalmente questões sociais, econômicas e de acesso ao diagnóstico e tratamento do HIV/Aids. Em relação à renda e à escolaridade, os dados entre brancos e negros são semelhantes até o período do ensino médio incompleto. Acima desse nível escolar, há predominância de não negros, tanto em relação ao grau de instrução quanto à renda maior. O estudo conclui que a discriminação vai além do fato de ser negro, pobre e viver com HIV, chegando a afetar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Pesquisa feita na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) teve resultados complementares: os negros tomam conhecimento do diagnóstico positivo para o HIV mais tarde que os brancos. Ainda, enquanto o negro se descobre com o vírus da Aids em situações clínicas complicadas e emergenciais, o diagnóstico no branco é realizado por meio de serviços especializados ou particulares. O branco teria, portanto, mais acesso à informação e à saúde. A pesquisa ocorreu com mil pacientes que passam por atendimento nos serviços de HIV/Aids da própria instituição e outros mil externos.

Fonte: Geledés Instituto da Mulher Negra

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