quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A vulnerabilidade da população negra à infecção pelo HIV e aids: A desigualdade de gênero e raça diante da epidemia


Contexto

O Ministério da Saúde vem desenvolvendo estratégias de gestão participativa voltadas à redução das condições de vulnerabilidade da população negra à infecção pelo HIV e aids. A ação pioneira que ilustra este contexto é o Projeto Brasil AfroAtitude, lançado em dezembro de 2004. Esse projeto gerou desdobramentos importantes, como uma campanha voltada para essa população e dois editais públicos de chamadas de pesquisas lançados pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, cujos resultados podem ser conhecidos na publicação Saúde e Sociedade, suplemento População Negra HIV/Aids. Essa publicação está disponível agora no endereço eletrônico www.aids.gov.br

Abaixo, um breve resumo desses resultados que pode contribuir para o conhecimento das linhas gerais das pesquisas e seus principais achados. Os dados sinalizam principalmente o foco em algumas regiões do país e suas características, e esse pode ser o diferencial para o desenvolvimento local de políticas públicas de saúde voltadas para a população autorreferida como negra e parda. As pesquisas estão disponíveis na íntegra, também no endereço eletrônico do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais.  

Locais onde as pesquisas foram desenvolvidas:
Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Recife, Santa Catarina, Bahia e Alagoas

O que você vai encontrar nas pesquisas:
ü  As desigualdades econômicas do Brasil influenciam no aumento da incidência de casos na população de menor nível socieconômico. - http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600003&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  O conhecimento incipiente sobre HIV/aids, aliado à prática sexual insegura, coloca mulheres de baixa escolaridade, menor renda e residentes no nordeste em situação de maior vulnerabilidade às DST/aids. -http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600003&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  O uso mais consistente do preservativo foi mais frequente em parcerias eventuais. O baixo uso do preservativo em mulheres nas relações estáveis foi atribuído à negativa do parceiro. - http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600003&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  As mulheres brancas são também aquelas com maior probabilidade de terem escolaridade mais elevada, possuir plano de saúde, ter tido parceiro estável no ano anterior à pesquisa e ter poder na relação sexual. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600004&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  Quanto às negras, elas têm maior probabilidade de terem baixa escolaridade, não possuírem plano de saúde, além de se sentirem com menos poder de negociação diante do parceiro sexual.  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600004&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  Observou-se que o nível sociocultural desfavorável associou-se aos afrodescendentes jovens, enquanto o nível médio associou-se aos brancos.  http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600005&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  O conhecimento sobre aids está diretamente relacionado ao uso do preservativo.
ü  Os jovens afrodescendentes iniciam-se sexualmente mais cedo e têm mais relações amorosas esporádicas ("ficar"), porém os adolescentes brancos mantêm mais relações sexuais. Além disso, os adolescentes brancos usam menos preservativo em contexto de múltiplos parceiros e em relacionamento de namoro do que os afrodescendentes. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600005&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  Jovens mulheres moradoras de 10 diferentes comunidades do Rio de Janeiro foram entrevistadas. Dessas, 74% eram negras, 39% eram sexualmente ativas e 24,4% eram portadoras de DST. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600006&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  Nas favelas cariocas, evidenciou-se que a discriminação racial sofrida é cotidiana e contribui para a construção de autoimagem negativa que aliada à pobreza, violência de gênero e dificuldade de acesso aos serviços de saúde ampliam a vulnerabilidade às DST/aids. -http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600006&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  A dificuldade de adesão ao uso de preservativo pelas mulheres relaciona-se a questões de gênero e de "proteções imaginárias", principalmente na concepção de que relações de confiança são protetoras diante da possibilidade de infecção pelo HIV. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600007&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  Muitas mulheres atribuem a responsabilidade pela aquisição e utilização do preservativo ao homem e acreditam que as mulheres devem se preocupar com a contracepção.http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600007&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  Não foi observada associação da ancestralidade genômica com a vulnerabilidade, mas sim das condições socioeconômicas à vulnerabilidade ao HIV/aids da população afrodescendente. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600008&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  Em relação ao acesso ao diagnóstico do HIV entre a população negra, a maioria dos entrevistados não relatou dificuldades para o acesso ao teste anti-HIV no município do Rio de Janeiro. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600009&lng=en&nrm=iso&tlng=pt
ü  Ações conjuntas entre os serviços de saúde e o movimento social possibilitam maiores condições de fortalecimento de uma política de enfrentamento das DST/aids entre as negras e os negros brasileiros. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-12902010000600012&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

O resumo acima não pode ser considerado o resultado das pesquisas. São indicações que devem ser analisadas considerando o contexto de cada uma delas: região, número de entrevistados, sexo, dentre outros.

Observações importantes sobre o resultado das pesquisas:
·         Os resultados apontam para a persistência e mesmo o agravamento, em algumas localidades e regiões, das condições de vulnerabilidade e de exposição à epidemia do HIV/aids, na população autorreferida como negra e parda. 
·         A interpretação deve ser feita com o necessário cuidado, levando em conta que a epidemia da aids no Brasil é considerada concentrada e homens que fazem sexo com homens, usuários de drogas injetáveis e profissionais do sexo continuam apresentando vulnerabilidade maior à infecção pelo HIV do que a população geral.
·         Outros fatores também devem ser considerados: a tendência à pauperização e interiorização da epidemia, além do aumento da incidência nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país, onde há maior concentração da população negra e parda.

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