terça-feira, 13 de maio de 2014

Mary Seacole e Maria Soldado: enfermeiras negras que fizeram história

"O Epistemicídio da Historia da Enfermagem, não nos permitiu conhecer e reconhecer a atuação de Enfermeiras Negras na Enfermagem Moderna pois o modelo Eurocêntrico, mais precisamente de Florence Nightingale, invisibilizou esse processo. Desta forma, em consideração ao dia Mundial da Enfermeira, o Blog População Negra e Saúde apresenta um artigo sobre as Enfermeiras Negras, autoria de Lily Löw e Taka Oguisso." 


O estudo pretende dar visibilidade a duas mulheres negras que em épocas diferentes foram consideradas enfermeiras pela imprensa. A proposta é divulgar a ação dessas mulheres que, em seu tempo e nas circunstâncias e condições existentes, procuraram atender às necessidades humanas, consubstanciando o que se convencionou chamar de enfermagem pré-profissional, vale dizer, um tipo de cuida- do baseado mais na intuição e no espírito de servir do que em ganhos materiais ou até sociais, mesmo porque não havia ainda qualquer tipo de instrução formal capaz de qualificar o trabalho do cuidador, na época de Mary Seacole.
Já na época de Maria Soldado, existiam algumas poucas escolas de enfermagem no Brasil, mas havia ainda restrição à admissão de negros. Este estudo focaliza personagens que prestaram cuidados baseando-se em um saber intuitivo, constituído pela prática, e não pela formação profissional (Oguisso, 2011). Essas duas mulheres conhecidas como Mary Jane Seacole e Maria Soldado viveram em épocas e países distintos, porém existia algo em comum entre elas: eram negras e participaram ativamente, atuando como cuidadoras e enfermeiras na guerra e sofreram discriminação racial. Descrever o trabalho dessas duas mulheres é uma forma de resguardar no presente essa história para que não se torne um passado a ser esquecido, escondido ou ignorado pelas gerações de hoje e do futuro, visto que dificilmente as publicações conseguem sobreviver ao massacre cultural imposto pela classe dominante, constituída majoritariamente de indivíduos brancos (Jezuino, 1997).
Há que se considerar também a quase inexistência de publicações sobre a importância do trabalho de enfermeiras negras para o desenvolvimento da enfermagem mundial e brasileira. Igualmente não pode ser esquecido que, tanto no mundo como no Brasil, o cuidado foi exercido por homens e mulheres comuns, escravizados ou não, como o caso das amas de leite, babás e mães pretas, que se dedicavam ao cuidado de crianças, idosos, gestantes e parturientes. Por muito tempo essa história foi negligenciada e pouco analisada, constituindo-se, pois, em amplo campo para estudos em história da enfermagem. Personagens de uma história em construção, esses cuidadores/ enfermeiros, homens e mulheres, merecem respeito e reverência por terem se dedicado, de alguma forma, a feridos e doentes, crianças e idosos (Oguisso, 2011).
Entre os muitos enfermeiros afro-americanos que contribuíram para a profissão, poucos são tão destacados como Mary Elizabeth Carnegie uma enfermeira inovadora que defendeu a causa de enfermeiros afro-americanos. Nascida em 19 de abril de 1916, em Baltimore (Maryland), foi exemplo do poder negro, pois conseguiu quebrar barreiras raciais e abriu caminho para o avanço de enfermeiras afro-americanas. Dra. Carnegie foi a primeira enfermeira negra nomeada para o Conselho de Administração da Associação de Enfermeiras da Flórida, entre outros inúmeros reconhecimentos. Escreveu vários livros e artigos entre os quais “O Caminho que trilhamos: negros na enfermagem” que recebeu várias premiações. Dra. Carnegie morreu em 20 de fevereiro de 2008 em Chevy Chase, Maryland Buried ( Tompkins-McCaw, 2013).
Nos Estados Unidos, vários outros negros se notabilizaram, tanto na área civil como militar, como Gloria Smith – coordenadora dos Programas de Saúde da Fundação Kellogg, em 1991; Barbara Nichols foi primeira negra a ser eleita presidente da Associação Americana de Enfermeiras, em 1978 e reeleita em 1980, Coronel Mary Rozina Boyd, Coronel Clara B. Wallace, além de muitas outras. Justifica-se tal investigação pela essência do trabalho do enfermeiro que é o cuidar/cuidado que não deve sofrer nenhum tipo de alteração em seu procedimento, na conduta, no trabalho em equipe, nas tomadas de decisões independentemente da cor da pele de quem cuida ou de quem é cuidado (Santiago, 2010).
No ambiente de trabalho, o racismo, na maioria das vezes está embutido no assédio moral, em piadas racistas e em outras formas de discriminação. Por tais razões é preciso refletir e ampliar ações em defesa da igualdade racial (Sandra,2013). “A atribuição de significado social às propriedades físicas, desde a infância, resulta da compreensão que, paulatinamente, vai se adquirindo em face dos sinais de aceitação ou de rejeição, implícitos nas atitudes e nas condutas dos adultos” (Silva, 2002).
Compreender o racismo pela internalização de imagem desfavorável de si mesmo, a inferiorização e a diferenciação presentes no fenômeno do racismo, relaciona a identidade pessoal com a identidade social, concebendo-a como produto social resultante de situação de conflito “envolvendo discriminação, exclusão social, exploração e opressão individual ou coletiva” (Silva, 2002). Para Munanga, “o racismo nunca foi um fenômeno estático e no, seu dinamismo atual, recorre com frequência à hipervalorização das diferenças ou das identidades culturais para reestruturar-se e reformular-se” (Munanga, 1990).
Sentimentos racistas e preconceituosos são geradores de práticas excludentes e discriminatórias, cujo efeito social interfere na assistência de enfermagem, pois favorece a imposição de juízos de valor em detrimento de juízos de fato, ferindo princípios de equidade e direitos humanos, desfavoráveis para o desenvolvimento de modelos assistenciais existentes, preconizados por políticas públicas de saúde como o Sistema Único de Saúde – SUS e o Programa Nacional de Humanização – PNH (Santiago, 2010).
O presente estudo tem por objetivo dar visibilidade a essas duas mulheres – Mary Jane Seacole e Maria Soldado – que sofreram racismo em suas ações, mas souberam desbravar as fronteiras do desconhecido, driblá-lo e ir em busca do ideal de suas vidas. Pretende-se, pois, resgatar a história dessas mulheres negras, posicionando-as como figuras de proa na história profissional da enfermagem, colocando-as entre as precursoras da enfermagem moderna.

No contexto da pré-profissionalização da enfermagem, existia certo olhar de indiferença ou desconfiança para com pessoas leigas que se dedicavam ao cuidado de doentes ou feridos, crianças ou idosos, mesmo em relação àquelas pessoas que deixaram seus nomes na história do Brasil. Porém, quando esse cuidado era prestado como parte de vocação religiosa, a pessoa era admirada por realizar um ato de caridade cristã. É certo, porém, que reais ou ficcionais, autoridades e mesmo a literatura lhes atribuíram o título de enfermeiro ou enfermeira (Oguisso, 2011).
A enfermagem é tão antiga quanto à existência do ser humano, pois a arte de curar nasceu do desejo de proteção e ajuda ao débil, ao doente e ao desamparado. 13 refere que qualquer expressão de tal natureza estará sempre vinculada à profissão de enfermeira. A mãe que assiste ao filho enfermo dando-lhe cuidados necessários constitui sempre a visão que surge ao pensar na primeira enfermeira da humanidade. O homem primitivo acreditava que as doenças provinham de causas sobre naturais, daí o forte vínculo que existia entre doença e divindades e a crença entre os gregos de que, indo ao templo do deus Esculápio (ou Asclépio) no século XIII (AC), poderiam recobrar a saúde. Assim, na Grécia antiga somente aos homens cabia discutir temas filosóficos e as mulheres dedicavam-se apenas aos cuidados dos filhos e dos doentes, tornando-se assim as primeiras “médicas”, “anatomistas” e enfermeiras da história ocidental. Essas mulheres realizavam partos, cuidavam de abortos e tratavam doentes com plantas e ervas medicinais (Borenstein, 1998).
Historicamente, portanto, pode-se dizer que os cuidados dispensados a pessoas na própria habitação foi uma das mais antigas – ainda que rudimentares – formas de atenção ao ser humano. E os cuidados existiram desde que surgiu a vida, uma vez que seres humanos – como todos os seres vivos – sempre precisaram de cuidados, vale dizer, “cuidar é o ato de vida que tem como fim, primeiro e antes de tudo, permitir que a vida continue a desenvolver-se e, assim, lutar contra a morte: morte do individuo, morte do grupo, morte da espécie” (Collière, 1989).
Na trajetória evolutiva da sociedade, a ação de cuidar ou “tomar conta” de pessoas, no sentido de ajudá-las a cuidar de si e de atender às suas necessidades vitais, confunde-se no tempo com o trabalho da mãe que nutre os seus filhos e deles cuida. Da mesma forma, como mulher deveria cuidar de outras pessoas de- pendentes, como idosos, feridos e doentes. A proteção materna instintiva, nestes termos, pode ser considerada como a primeira forma de manifestação de cuidados do ser humano com seus semelhantes (Oguisso, 2011).
Na medida em que grupos humanos abandonavam o nomadismo e se fixavam em de- terminado território, formando os primeiros assentamentos humanos, surgiam primitivas organizações sociais, nas quais homens e mulheres assumiam funções distintas nesse embrião de sociedade. Homens dedicavam-se à caça e pesca com todos os riscos inerentes a essas tarefas, e mulheres voltavam suas ações para as lides domésticas. “Ambos, porém, dedicados a cuidar, isto é, “manter a vida dos seres humanos como objetivo de permitir a reprodução e a perpetuidade da vida do grupo” (Collière, 1989).
O reconhecimento legal, social e intelectual da profissão, como permite observar José Siles Gonzáles (1999), exige um olhar que apreenda não apenas o saber-fazer. Os conteúdos da história da enfermagem, ao permitir o reconhecimento do passado, dos percursos que levavam homens e mulheres a projetar a arte de ciência do cuidado como algo imprescindível à vida moderna, sempre orientou o profissional (Siles, 1999).

Assim, devemos projetar luzes sobre essas mulheres: Mary Jane Seacole e Maria Soldado que fizeram parte dessa história.

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