domingo, 30 de novembro de 2014

Campanha contra racismo no SUS dá voz a quem sofre preconceito, diz ONG

Aline Leal - Repórter da Agência Brasil
Ativistas do movimento negro não viram sentido no repúdio que o Conselho Federal de Medicina (CFM)  manifestou à campanha contra o racismo no Sistema Único de Saúde (SUS). Segundoa coordenadora da organização não goveramental (ONG) Criola, Lúcia Xavier, várias entidades já reconheceram que existe racismo no SUS e a campanha é uma forma de dar voz à população que enfrenta o problema.
“Quando a gente fala em discriminação, não quer dizer que um negro entra no posto e é xingado. O que a gente acentua é a discriminação que tem por base o modo como a instituição promove os serviços e olha para a pessoa, não escuta as queixas, não a trata com cidadania, sabe que a população negra tem alguns agravos na saúde por causa da raça, e isso não é levado em consideração”, explicou Lúcia. Para ela, a manifestação do CFM é descabida, pois a campanha vem enfrentar um problema reconhecido pelo Ministério da Saúde e outras entidades.
A coordenadora ressalta que o problema de racismo no SUS não tem origem especificamente nos médicos, é de todo o sistema. Os negros sofrem muito por causa de uma cultura institucional que trata essas pessoas de forma discriminatória, disse a ativista. Segundo ela, a campanha está entre uma série de ações do governo que visam ao combate do racismo institucional.
O coordenador de Comunicação da Associação Paraibana de Portadores de Anemias Hereditárias e membro do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial da Paraíba, Dalmo Oliveira, a campanha é muito importante para o combate ao racismo. “O racismo institucional leva a um despreparo dos profissionais para lidar com as doenças que tem maior incidência na população negra”, defende.
Oliveira também diz  que o movimento negro não acusa especificamente os médicos e enfermeiros de racismo. Na avaliação dele, o sistema funciona de forma que estes profissionais muitas vezes não escutem ou acreditem nos relatos dos pacientes negros.
O ativista conta que há diversos relatos de pacientes negros que tiveram seu estado de saúde negligenciado porque os profissionais de saúde pensam que a população negra é mais resistente à dor do que a não negra. “Eles acabam negando o analgésico, achando que a gente está exagerando na dor. Isso também acontece em situações de parto, como se as mulheres negras estivessem preparadas para aguentar mais dor que as não negras”, ressaltou o coordenador.
Na última quinta-feira (25), o Ministério da Saúde lançou a primeira campanha publicitária que busca envolver usuários do SUS e profissionais de saúde no enfrentamento ao racismo institucional. Com o slogan "Racismo faz mal à saúde. Denuncie!", a iniciativa visa a conscientizar a população de que a discriminação racial também se manifesta na saúde.
Dados do Ministério da Saúde mostram que as taxas de mortalidade materna infantil entre a população negra são superiores às registradas entre mulheres e crianças brancas. Os números mostram que 60% das mortes maternas ocorrem entre mulheres negras e 34% entre mulheres brancas.
A campanha prevê ainda que, por meio do Disque Saúde 136, as pessoas possam denunciar qualquer situação de racismo que tenham presenciado, além de se informar sobre doenças mais comuns entre a população negra e que exigem maior acompanhamento, como a doença falciforme e o diabetes tipo 2.
O CFM repudiou a campanha alegando que o Ministério da Saúde está driblando o foco do problema, que, para eles, é a falta de estrutura do SUS, que atinge pacientes de todas as raças. O conselho ainda disse que, pelo Código de Ética Médica, estes profissionais não podem diferenciar pacientes por razão de herança genética.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Mulheres e negras, todas as formas de violência pelo simples fato de existir

Por Emanuelle Goes*

Durante este ano venho observando, muito por conta do Blog População Negra e Saúde, o quanto as mulheres negras são violadas e violentadas em todo mundo pelo simples fato de existir e pela pertença racial negra. Irei fazer uma reflexão em alusão aos 16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher que começa no dia 25 de novembro e ao novembro negro.

Como as violências e as violações são muitas nos diversos campos da vida das mulheres negras, neste texto irei me remeter somente e tão somente a questão da saúde e mesmo assim não darei conta. Ao mesmo tempo, em meio às leituras que venho fazendo, considero que o campo da saúde é estratégico para a eliminação dos indesejados, a formação da nação, assim como o controle dos corpos das mulheres.

Raça, racismo e gênero foram/são igualmente importantes para a medicina eugênica, pois era pelas uniões sexuais que as fronteiras entre as raças eram mantidas ou transgredidas. Por isso, a eugenia, gênero e raça ficaram ligados à política de identidade nacional, sendo um mecanismo de manutenção do racismo.

E esta relação de controle e regulação dos corpos encontra nas mulheres o alvo perfeito, tanto pelas questões biológicas da reprodução quanto pelas questões pautadas nas relações desiguais de gênero e o patriarcalismo, e no caso das mulheres negras que tem estas relações mais agravadas, pois tem o racismo como estruturante.

Adiante seguirei a ordem cronológica, geracional, do ciclo de vida. Apresentarei fatos que foram registrados ao longo deste ano.

Cuidemos de nossas meninas

De acordo com a Organização Mundial de Saúde cerca de 140 milhões de mulheres e meninas sofreram mutilação genital em todo mundo. O procedimento pode ser realizado em diversas idades, desde pouco após o nascimento até quando uma mulher completou seu desenvolvimento. As mulheres e meninas que tem suas genitais mutiladas frequentemente sofrem de dor severa, hemorragias, choque, dificuldades para urinar, infecções e, em algumas ocasiões, inclusive a morte. Muitas sofrem também de dor crônica, dificuldades durante o parto – incluindo um risco maior de mortalidade materna, diminuição do prazer sexual e transtorno de estresse pós-traumático. Leiam um pouco mais sobre o assunto no artigo Serra Leoa adota enfoque inovador para pôr fim à mutilação genital feminina.

Segundo os especialistas da ONU, por conta do Dia Internacional das Meninas, reitera que empoderar as meninas adolescentes e ajudá-las a alcançar o seu potencial é um passo fundamental para acabar com a violência contra as mulheres e meninas. A violência contra as adolescentes é muito comum, frequente e tolerada, muitas vezes por causa da discriminação e da desigualdade persistente entre os gêneros. A  discriminação de gênero profundamente enraizada e as normas sociais colocam as jovens adolescentes em risco de abusos e violência, comprometendo a transição da infância para a fase adulta.

Pelo direito de decidir

Em muitas situações as mulheres estão sendo esterilizadas, principalmente as mulheres negras, o que para o movimento de mulheres negras não é nenhuma novidade que lutaram contra a esterilização em massa das mulheres negras no Brasil durante o final da década de 80. No entanto na atualidade temos casos emblemáticos em outras partes do mundo como nos Estados Unidos da America mais precisamente na Califórnia, onde mulheres negras em situação de prisão estavam sendo esterilizados sem autorização e sobre coação dos profissionais de saúde. 

Em um relatório feito pelo o centro de jornalismo investigativo na Califórnia em 2012, que fez várias entrevistas com mulheres que foram esterilizadas, esse fato foi relevado. Numa entrevista com uma mulher negra detenta que foi coagida para fazer esterilização disse que ela estava grávida e na hora para de dar á luz, um momento emocionante e vulnerável, foi quando o medico da prisão sugeriu a esterilização para ela (JOHNSON, 2013).

E no Quênia, em Nairobi, as mulheres com HIV e AIDS são vítimas do Estado e de alguns profissionais de saúde. Práticas de esterilização são realizadas sem o consentimento das mulheres, simplesmente por serem portadoras do vírus HIV e/ou por possuírem a doença (AIDS). Tal procedimento foi reconhecido por organismos internacionais, regionais e nacionais de direitos humanos como uma violação dos direitos humanos, e como uma forma de tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos e degradantes, bem como uma forma de violência contra as mulheres.

No relatório realizado pela ONG Iniciativa Africana de Mídia e Gênero, estão detalhados 40 casos de mulheres do Quênia que foram esterilizadas de maneira forçada porque eram soropositivas. Há um caso de uma mulher que descobriu no pré-natal que tinha HIV, por esse motivo os médicos lhe disseram que a maneira mais segura de ter o bebê sem transmitir o vírus seria realizando uma cirurgia cesárea. Durante a cesariana, sem que a mulher soubesse ou desse seu consentimento, foi esterilizada.

A fala que segue, relata o caso de uma mulher que foi esterilizada em um outro momento, que não o parto: "Me disseram que eu precisava de uma cirurgia no meu útero para me livrar de câncer. Foi durante a recuperação pós-cirúrgica quando eu soube que eu tinha sido esterilizada ".

Em resposta às violações constantes dos direitos humanos contra as mulheres que vivem com o HIV, a rede Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV (ICW global), criada por e para as mulheres que vivem com o HIV, liderou uma campanha global contra as violações sistemáticas dos direitos humanos das mulheres soropositivas, a fim de documentar e analisar os casos relatados, apoiar os sobreviventes e a mobilização das comunidades, as organizações da sociedade civil e decisões políticos para falar contra essas violações dos direitos humanos.

Mortalidade Materna é um ato de violência

Ao longo dos anos estão sendo apresentados estudos que apresentam as diferenças no acesso das mulheres por conta de sua raça/cor (mulheres negras, indígenas e brancas), idade (mulheres adolescentes e adultas) e de vários lugares (rural e urbano, norte e sul). O Brasil recentemente apresentou a sua melhora na diminuição da taxa de mortalidade materna e que mesmo não alcançando o Objetivo para o Desenvolvimento do Milênio que trata sobre a Saúde Materna, ODM 5, obtivemos avanços positivos, e isso é fato. No entanto são dados globais, que precisamos ficar atentas às especificidades e particularidades das mulheres que tem cor/raça/etnia, idade e lugar.
 Na África Sul as mulheres continuam a morrer de morte materna e a taxa de mortalidade materna é inacreditavelmente elevada. Em 2011 foram registradas 1.560 mortes maternas e em 2012 o registro dá conta de 1.426 casos. Mais de um terço das mortes estiveram relacionadas com o HIV. Peritos sugerem que 60% podiam ter sido evitadas. “Luta pela Saúde Materna: Obstáculos aos Cuidados Pré-Natais na África do Sul” demonstra a ligação entre as centenas de mortes maternais registradas todos os anos no país e o receio em torno da confidencialidade do paciente e dos testes ao VIH (Vírus da Imunodeficiência Humana), a falta de informação e os problemas relacionados com o transporte. Tudo isto faz com que as mulheres não procurem cuidados pré-natais precoces.

E como vai a saúde sexual das mulheres negras idosas?

Poucas são as informações sobre a saúde das mulheres idosas e se acrescentar o racial a situação piora, a invisibilidade da saúde sexual e da sexualidade das mulheres nos extremos das idades (adolescentes e velhas) precisam ser colocadas no campo da equidade e do direito sexual, pois as mulheres idosas por não fazer mais parte da idade reprodutiva são colocadas a margem do acesso e dos cuidados da saúde sexual.

Finalizando por hora!

Se as lutas por garantias de direitos a saúde não contemplar as mulheres e as suas interseccionalidades estarão distante de efetivar direitos e de reivindicar agendas legitimas, pois a dimensão das trajetórias e experiências vividas deve ser contemplada na agenda da saúde tanto no campo da política e quanto do direito.


Por uma saúde sem racismo, sexismo! Pelo direito de existir, pelo bem viver!


*Emanuelle Goes - Blogueira. Enfermeira. Mestra em Enfermagem. Doutoranda em Saúde Pública. Odara Instituto da Mulher Negra



JOHNSON, C. California was sterilizing its female prisoners as late as 2010. The Guardian. (2013).

THE GLOBAL COALITION ON WOMEN AND AIDS. ICW in Focus: Forced sterilization of women living with HIV must stop now. 12 de maio de 2014. Disponível em: http://www.womenandaids.net/news-and-media-centre/latest-news/in-focus--forced-sterilization-of-women-living-wit.aspx. Acesso em: 08 de outubro de 2014. 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

MINISTÉRIO DA SAÚDE SUSPENDE CAMPANHA DE COMBATE AO RACISMO NO SUS

Ana Flavia Magalhães Pinto

Estava previsto para hoje o lançamento oficial da campanha "SUS sem Racismo", a se realizar durante a reunião da Comissão de Intergestores Tripartite (CIT). A despeito da seriedade da ação, convites foram enviados apenas ontem por volta das 17h30. Esses, todavia, foram pouco depois cancelados.
A razão para tanto é que o Ministério da Saúde decidiu pela suspensão da Campanha. As peças produzidas previam intervenção nos jogos do Campeonato Brasileiro de Futebol, comerciais de TV (até mesmo no intervalo do Jornal Nacional), inclusão do item nos espaços de comunicação do Ministério da Saúde, entre outras.
Uma vez que vários ministros já reconheceram a arraigada presença do racismo no SUS, a Campanha SUS sem Racismo viria como uma estratégia para estimular os usuários a denunciarem as práticas discriminatórias, uma vez que a solução do problema passa pela identificação detalhada de como ele acontece e pelo desenvolvimento de medidas voltadas à transformação de atitudes e comportamentos. Nas últimas semanas, houve até mesmo uma capacitação de atendentes do Disque Saúde (136), a fim de que a equipe estivesse minimamente preparada para receber e encaminhar corretamente as queixas.
Todo esse esforço, porém, corre o risco de se perder. Afinal, não é a primeira vez que uma campanha de combate ao racismo no âmbito do SUS é organizada e depois engavetada pelo Ministério. Após questionamentos feitos ao longo do dia, recebemos a resposta de que o lançamento da Campanha foi apenas adiado. Mas o fato de não indicarem a previsão de uma nova data só reforça a apreensão criada em torno da resolução. Quem acompanha os sucessivos entraves postos à Política Nacional de Saúde da População Negra sabe muito bem aonde isso pode levar: ao nada.
Convidamos, pois, que visitem as páginas no Ministério da Saúde (https://www.facebook.com/minsaude) e a fanpage SUS sem Racismo (https://www.facebook.com/SUSnasRedes) e manifeste sua opinião.
O SUS é de todos @s brasileir@s e o racismo tem impedido que isso se torne uma realidade.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

20 de novembro: um dia para lembrar a discriminação cotidiana das mulheres negras

(Luciana Araújo / Agência Patrícia Galvão) No Brasil, o dia 20 de novembro marca, além do Dia da Consciência Negra, o início das atividades dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres. O calendário, que internacionalmente tem início no 25 de novembro (Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher) e vai até o dia 10 de dezembro (Dia Internacional dos Direitos Humanos), foi antecipado no País para resgatar o peso que o racismo estruturante e estrutural vigente em nossa sociedade tem na maior vulnerabilidade das mulheres negras à sistemática violação dos direitos humanos.
Desigualdades de gênero e raça em números
Conforme apontou o Informe Anual 2013-2014: O Enfrentamento da Violência contra as Mulheres na América Latina e no Caribe, publicado pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) no início deste mês, as violações à integridade física, moral ou psicológica da mulher não podem ser analisadas fora do contexto social. E todos os marcadores sociais, quando avaliados na perspectiva da mulher negra, mostram dados que contribuem para que essa parcela da população esteja mais suscetível à violência.
Estudo publicado em agosto deste ano pelo Laboratório de Análises Estatísticas, Econômicas e Sociais das Relações Sociais do Instituto de Economia da UERJ aponta que o rendimento médio das mulheres pretas e pardas chegava a ser até 140% menor que o de homens brancos no País (ver tabela abaixo).
rendimento-medio-negras_LAESER_jun2014
O relatório Estatísticas de Gênero: Uma análise dos resultados do Censo Demográfico de 2010, divulgado pelo IBGE em outubro deste ano, mostra que, embora as taxas de analfabetismo no Brasil tenham caído de forma mais intensa entre as mulheres pretas (36,2%), o percentual ainda é 2,3 vezes superior à taxa verificada entre as mulheres brancas.
As mulheres negras também são maioria entre os desempregados e subempregados, entre as vítimas de tráfico de pessoas e as vítimas de assassinato. Em recente entrevista ao jornal O Globo, o ginecologista Mario Giani Monteiro, do Instituto de Medicina Social da UERJ, declarou que mulheres negras têm 2,5 vezes mais riscos de morrer por complicações pós-aborto do que as brancas.
É preciso desconstruir o imaginário sobre as mulheres negras
A imagem da mulher na mídia também é sempre um tema polêmico, particularmente em razão da hipersexualização, objetificação e reforço de estereótipos subalternos, constantemente questionados por organizações feministas. No caso das mulheres negras, episódios como o da campanha publicitária dacerveja Devassa somam-se à invisibilização ou a reiteração de lugares marcados pelo preconceito, como no recente caso do seriado ‘O Sexo e as Negas’, em exibição na Rede Globo de Televisão, que gerou protestos de dezenas de organizações e instituições.
A jornalista Rosane Borges falou à reportagem da Agência Patrícia Galvão sobre o significado simbólico do Dia da Consciência Negra, às vésperas da realização da Marcha das Mulheres Negras, que acontece em maio do ano que vem. Rosane coordenou o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e integra o comitê nacional de organização da Marcha.
“Este 20 de novembro tem um caráter especial por uma série de elementos. E, do ponto de vista da representação das mulheres negras, lamentavelmente, será lançada neste feriado uma corrente de artistas e personalidades em apoio ao seriado ‘O Sexo e as Negas’, mobilizada pela Rede Globo. Então, é importante pensar que, no contexto da construção da Marcha das Mulheres Negras pelo Fim do Racismo, do Sexismo e pelo Bem Viver, trazemos um conjunto de questionamentos que põem em xeque o imaginário que sustenta uma imagem distorcida da mulher negra. Quando falamos em sexismo e racismo, para além das questões materiais, das desigualdades no mercado de trabalho, das diferenças salariais, consideramos que, para as mulheres em geral e mais ainda para nós, mulheres negras, a questão do imaginário tem importância estratégica. Então, temos um 20 de novembro marcado por uma reatualização da agenda do movimento de mulheres negras e do movimento negro, com ênfases em algumas pautas, e a pauta relacionada à imagem, à visibilidade, vem hoje, de fato, como algo prioritário.  E, além das manifestações e passeatas, haverá iniciativas de mulheres negras em todo o País, em uma contraofensiva a essa imagem estereotipada que aparece na mídia”.
Resgatar o legado das mulheres negras para o Brasil 
O 20 de novembro também precisa ressignificar a contribuição das mulheres negras à história brasileira. Nas homenagens a Zumbi dos Palmares, o papel de Dandara e de Luiza Mahin na luta contra a escravatura deve ser resgatado com maior força. Assim como as contribuições de mulheres negras aos campos das artes, da política e das ciências, como no caso das escritoras Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo (que segue em atividade), da médica e militante comunista Maria Aragão, e da antropóloga feminista Lélia Gonzalez.
“Esse é um nó para pensarmos. A mulher no geral, mas a mulher negra em particular, foi vitimada pela cultura da invisibilidade. Esse é um dos efeitos mais perversos do racismo e do sexismo, porque afeta em grande parte as mulheres negras. Em toda a agenda do movimento negro, quando conseguimos romper algumas barreiras de invisibilidade e do silêncio que nos é imposto, essas barreiras são quebradas em favor de homens negros. Então, temos uma luta específica, dentro da grande luta geral contra o racismo, que é incidir sobre um problema que é estrutural e que atinge também o movimento feminista clássico, dito geral, porque a invisibilidade que as mulheres brancas denunciaram não traz em seu bojo a radicalidade do racismo. Então, do ponto de vista racial, é o homem negro que emerge e do ponto de vista do feminismo é a mulher branca que aparece. Há uma deficiência, e às vezes uma inoperância mesmo, das reivindicações no que diz respeito à presença da mulher negra. Por isso, a pauta do imaginário é muito importante, porque é ele que nos coloca absolutamente nas sombras”.
Rosane Borges destaca também a importância de iniciativas de resgate histórico das contribuições da mulher negra à sociedade brasileira. “Como diz [a filósofa e ativista] Sueli Carneiro, deve ser um trabalho de pesquisa e um esforço intelectual, não restrito à academia, que nem sempre é o lugar mais apropriado, para dar visibilidade ao esforço de feministas negras ou não feministas que trabalharam ou estão trabalhando com o legado das mulheres negras à nossa história. E isso é fundamental, porque o que não é visto, não é lembrado, inexiste. O sujeito mulher negra existe no imaginário dentro de uma lógica muito restrita, do trabalho subalternizado, da empregada doméstica; fora desses espaços a gente some. A reconstrução da memória é uma tarefa política, um desafio de extrema importância. O que significa o seriado ‘O Sexo e as Negas’? Que não há na produção da Rede Globo uma percepção de que, a despeito da nossa posição em espaços subalternizados, as mulheres negras têm uma história de luta e de inserção em outros espaços sociais. A repetição desses lugares subalternizados revela que o olhar sobre nós ainda é muito limitado, porque a nossa trajetória de participação no País, das mulheres que colaboraram para transformar o País, que pensaram a Nação brasileira, que lutaram pela democracia, some. E temos que resgatar esse legado na escravidão e no pós-escravidão”.
Ainda sobre o seriado, Rosane destaca que se trata de uma expressão do racismo institucional que existe no Brasil, levando à situação de que mesmo as ações que advogam a “exaltação” da mulher negra reforçam essa lógica. “Esse racismo, o sexismo e qualquer outra forma de discriminação são tão arraigados que não se consegue promover outros mecanismos para pensar o outro, a outra. Por exemplo, até mesmo nos cartazes produzidos pelos governos a gente só vê a mulher negra em ações de assistência social. E se é verdade que somos nós que precisamos majoritariamente dessas políticas, quando são ações positivas, fora da assistência social, a mulher negra não aparece ou é ‘embranquecida’. E o Estado brasileiro tem o dever de promover uma outra imagem na exata medida em que promove a inclusão desse sujeito nas políticas de assistência social. Porque a melhoria das condições materiais de um povo e de um grupo racialmente discriminado se dá juntamente com as imagens promovidas”. E Rosane lembra que a mídia, enquanto concessão pública, também tem essa responsabilidade.
As perspectivas para mudar o quadro de ausência de políticas públicas que assegurem real equidade nas condições de vida e respeito à cidadania da população negra não são muito animadoras diante do resultado eleitoral deste ano. Segundo dados da Câmara dos Deputados, 71% dos eleitos para aquela casa legislativa são homens brancos. As mulheres negras representam 2,2% dos 513 deputados. Os deputados autodeclarados negros somam 19% da Câmara. Em audiência pública realizada pela Comissão de Educação da Casa no último dia 18, a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, abordou essa dificuldade.

Reflexão 20 de Novembro: Igualdade de gênero para as mulheres negras ainda parece sonho

A desigualdade para as brasileiras negras é dupla. Além das diferenças em relação aos homens, suas condições de vida se comparadas às das brancas estão longe de serem equivalentes


Há um abismo a ser vencido pelas mulheres negras (pretas e pardas) quando se trata de igualdade de gênero no Brasil. Além das diferenças em relação aos homens, suas condições de vida quando comparadas às das brancas ainda estão longe de serem equivalentes. É uma dupla desigualdade.
Mesmo os avanços na realidade socioeconômica das brasileiras registrados entre 2000 e 2010, segundo dados do IBGE, especialmente na educação e na participação no mercado de trabalho, não foram suficientes para trazer a população feminina negra a patamares próximos das mulheres brancas.
Relatório Estatísticas de Gênero – Uma análise dos resultados do Censo Demográfico 2010, produzido pelo IBGE, divulgado recentemente, mostra que elas continuam atrás em renda, escolarização, qualidade do trabalho e saneamento. E as distâncias não são pequenas.
As negras são menos escolarizadas, 6,71% concluíram o ensino superior, enquanto entre as brancas o índice é de 17,7%. O rendimento mensal dessa parcela de brasileiras (R$ 726,85) equivale à metade do das brancas (R$ 1396,32) e a 1/3 do dos homens brancos (R$ 2086,41). A situação se inverte quando se trata de contribuição em relação ao rendimento familiar. As negras entram com 42% contra 39,7% das brancas.
A qualidade do trabalho também é distante, elas são maioria entre as empregadas domésticas, entre as que trabalham sem carteira assinada e minoria entre as empregadoras.
Os dados coincidem com uma pesquisa da professora Maria Rosa Lombardi, da Fundação Carlos Chagas, apresentada no Seminário Gênero, Raça e Pobreza, realizado pela FGV Direito, em São Paulo, na semana passada.
“As mulheres negras estão na base da pirâmide de rendimento nos setores formal e informal afirmou. “O homem negro sofre a discriminação por raça, a mulher sofre por raça e gênero”, completou. Lombardi diz que enquanto a mulher branca precisa provar que é melhor que os homens, a mulher negra antes precisa provar que é melhor que a branca.
Não bastasse tudo isso, enquanto nas áreas urbanas 32,6 milhões de brancas têm acesso a um saneamento básico adequado, esse serviço chega a 24,6 milhões das mulheres negras.
19/11/2014Geledés Instituto da Mulher Negra


Leia a matéria completa em: Igualdade de gênero para as mulheres negras ainda parece sonho - Geledés 
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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Estereótipos sexuais e as “negas”

Zelinda Barros¹

O impacto provocado pela série Sexo e as negas é sintomático. Na TV, assim como ocorre em outros espaços sociais, ocupamos muito menos espaço do que deveríamos e, nas poucas vezes em que lá estamos, somos quase que exclusivamente representadas/os por autores/as brancos/as, que falam sobre nós e nossas experiências partindo de um olhar enviesado. Nesse caso específico, o autor branco recorre a estereótipos sobre mulheres negras para representar as nossas experiências. Uma feminista negra estadunidense, bell hooks*, ao analisar a forma como o feminismo liberal considerava a mulheres negras nos EUA, refletiu sobre alguns elementos que podem ser úteis à reflexão sobre o que ocorre aqui no Brasil, uma vez que trata de questões referidas à população negra na diáspora, não apenas ao contexto estadunidense.
Na tentativa de reverter a repercussão negativa da série em segmentos representativos da população negra, alguns vídeos em solidariedade ao autor da série O sexo e as negas vêm sendo produzidos e divulgados em redes sociais por artistas e outras profissionais negras de segmentos ligados à arte, como Camila Pitanga, Rita Batista, Preta Gil e Margareth Menezes. Isso também é sintomático. A diversidade de formas de manifestação do racismo e a sofisticação com que ele opera em nossa sociedade expõe a diversidade existente entre nós, negras/os, especialmente na forma como contribuímos para o seu fortalecimento supondo reagir a ele.
O uso de expressões como “O sexo e as negas me representa” ou a “ignorância” imputada a quem critica essa produção mostra como, tal como hooks afirma, “a ausência de restrições extremas leva muitas mulheres a ignorar as esferas onde elas são exploradas ou discriminadas ou mesmo pensar que as mulheres não são oprimidas”**. Ela argumentava em referência a mulheres brancas de classe média, mas também podemos utilizar esse argumento para as reações ao racismo expressas por mulheres negras de classe média, pois é nítida a desconsideração da situação de opressão que nós sofremos por conta do véu interposto pela classe. A falta de representatividade na TV, para muitas/os, pode ser resolvida com a inclusão de atores e atrizes negros/as em produções em que atuem como protagonistas, independentemente das representações que sejam reforçadas nessas produções. Como sua inserção de classe lhes permite acessar espaços vedados à maioria da população negra, a inclusão numérica de indivíduos negros é suficiente.
É preciso não apenas ampliar o número de produções que incluam artistas negras/os e contemplem as nossas experiências, como também diversificar as representações por elas veiculadas, rompendo com a estereotipia. Formas mais produtivas de reação ao racismo devem ser incentivadas, especialmente as que evidenciem que os privilégios que algumas mulheres negras supõem gozar são relativos e limitados pelo racismo e sexismo, que operam como forças que impedem a efetiva transformação da nossa sociedade num contexto verdadeiramente igualitário.

* hooks, que escolheu esse pseudônimo em homenagem a seu avô, Bell Blair Hooks, optou por grafar seu nome dessa forma para destacar sua obra, não a sua pessoa.
** hooks, bell. Feminist theory: from margin to center, 1984, p. 5.

¹Antropóloga feminista negra, ciberativista.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Anistia Internacional lança campanha sobre o alto índice de homicídios de jovens


A Anistia Internacional lança no domingo (09/11), às 10h, na pista de skate do Aterro do Flamengo (altura do Museu da República), Rio de Janeiro, a campanha Jovem Negro Vivo. A mobilização chama a atenção para o alto número de mortes de jovens no país, em especial entre a juventude negra.
“Além de ser um país com um dos maiores índices de homicídios no mundo, o Brasil está matando mais seus jovens e, entre estes, os negros. Os números são chocantes. Dos 56 mil homicídios que ocorrem por ano, mais da metade são entre os jovens. E dos que morrem, 77% são negros. A indiferença com a qual o tema é tratado na agenda pública nacional é inaceitável. Esteve presente de forma tímida no debate eleitoral, está fora das manchetes dos jornais. Parece que a sociedade brasileira naturalizou esta situação”, afirma Atila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional Brasil.
Com a campanha Jovem Negro Vivo, a Anistia Internacional convida todas as pessoas a conhecer e contribuir para mudar esta realidade. Para isso, mobiliza a sociedade para assinar o manifesto “Queremos ver os jovens vivos”, que defende o direito a uma vida livre de violência e preconceito. E ainda pede políticas públicas de segurança, educação, saúde, trabalho, cultura, mobilidade urbana, entre outras, que possam contribuir para o enfrentamento desta realidade.
“A morte violenta não pode ser aceita como destino de tantos jovens. As consequências do preconceito e dos estereótipos negativos associados a estes jovens e aos territórios das favelas e das periferias devem ser amplamente debatidas e repudiadas”, destaca Atila Roque.
Campanha
As peças desenvolvidas para a campanha Jovem Negro Vivo buscam sensibilizar a sociedade brasileira para o alto índice de homicídios no Brasil, o que faz do país um dos mais violentos do mundo. A campanha é uma parceria com a agência de publicidade DM9 Rio.
vídeo da campanha, os infográficos estáticos e o videográfico animado dão um panorama sobre os números da violência no Brasil, comparado a outros países, inclusive, aqueles que vivem conflitos armados. E mostram também como os homicídios vitimam mais os jovens do que a população brasileira em geral.
Os dados são contundentes em mostrar como os homicídios no Brasil têm atingido mais os jovens e, entre eles, os negros. Enquanto a taxa da morte de jovens brancos tem diminuído, a que se refere à morte de jovens negros tem aumentado anualmente.

Lançamento
O lançamento da campanha será no dia 9, em um dia de ativismo e lazer no Aterro do Flamengo, na pista de skate, das 10h às 16h com apresentações culturais e música.
Durante todo o dia haverá exposição interativa com “manequins invisíveis”, criada pelo artista Humberto de Castro, que retrata os jovens que tiveram suas histórias de vida interrompidas ao serem vítimas de homicídio. O DJ Flash, do Baile Black Bom, vai dar o ritmo do movimento.
Às 11h tem início a Batalha pela Vida – O Passinho pela Igualdade, que será um desafio entre grupos de passinho, organizado pelo produtor cultural Julio Ludemir. Ao meio-dia, será a vez do DJ Emílio, da Festa Phunk animar os participantes. Às 13h começa a Disputa de Barbeiros com WL do Corte e Edú do Corte (Corte do Jaca) e às 15h o Dream Team do Passinho encerra a programação.
“Queremos fazer um dia de festa no Aterro, porque apesar da campanha tratar de um tema difícil, a morte dos nossos jovens, queremos valorizar o protagonismo dos jovens em defesa de seus direitos e chamar a atenção para a importância do país criar condições para que parte expressiva da juventude não tenha sua história interrompida pela violência. O destino dos jovens é viver”, ressalta Atila Roque.
Durante o mês de novembro, quando se comemora o Dia da Consciência Negra (20), outros eventos da campanha Jovem Negro Vivo serão realizados em comunidades da cidade do Rio de Janeiro. Em 2015, eventos da campanha acontecerão também em outros estados do país.
Confira o vídeo da campanha Jovem Negro Vivo:


Saiba mais

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

NOVA CHAMADA para publicação de artigos: MULHERES NEGRAS E ABORTO, AUTONOMIA E LIBERDADE






SISTERHOOD Nº 01: MULHERES NEGRAS E ABORTO, AUTONOMIA E LIBERDADE

Para refletir e dialogar sobre o impacto do aborto inseguro na vida das mulheres negras a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), juntamente com o Odara - Instituto da Mulher Negra está realizando a chamada de artigos com a finalidade de convocar pesquisadoras e o movimento de mulheres negras para junto conosco construir a publicação do livro: Sisterhood nº 01: Mulheres Negras e Aborto, Autonomia e Liberdade.

O objetivo principal da publicação é visibilizar pesquisas e experiências sobre as mulheres negras e a situação do aborto no Brasil. Sabe-se que os abortos inseguros realizados por mulheres no Brasil e em todo mundo são considerados um grave problema de saúde pública, uma violação do direito à vida, à autonomia e liberdade das mulheres. No entanto é preciso apresentar o cenário a que as mulheres negras estão submetidas por conta das desigualdades raciais, do racismo, sexismo e de outras interseccionalidades.

Então, para quem tiver interesse de submeter: o artigo deve ter no máximo 10 (dez) laudas, letra Times New Roman, fonte 12, espaçamento 1,5, texto justificado. Os artigos deverão ser enviados para o email:emanuelle.goes@institutoodara.org.br. As organizadoras do livro são Denize Ribeiro (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia) e Emanuelle Goes (Odara – Instituto da Mulher Negra). O prazo para o envio dos artigos foi prorrogado até dia 05/12/2014

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Racismo faz mal à saúde

O artista Arthur Bispo do Rosário, “o Bispo”, e detalhe de seu “Manto da Anunciação”

A afirmação “RACISMO FAZ MAL À SAÚDE MENTAL” tem como premissa o notório e indesejável efeito do racismo, que pode se configurar como sofrimento psíquico. Reconhecer as expressões manifestas ou tácitas do racismo e seus efeitos em indivíduos e na coletividade é um primeiro passo para dimensionar suas implicações na conformação do sofrimento psíquico. É imprescindível que reflexões dessa ordem permeiem as relações sociais e comunitárias. É importante que as implicações do racismo estejam presentes, também, como parte do saber e fazer dos serviços de saúde e, sobretudo, nas práticas relacionadas mais diretamente à saúde mental. Propósito disso é o aprimoramento da atenção e do cuidado oferecido pela Rede de Atenção Psicossocial do SUS – RAPS, de modo a envolver em suas práticas, um olhar sobre os efeitos do preconceito e da segregação, referencialmente imbricados nas questões étnico raciais em nossa cultura. A questão racial é uma construção social e de coletivos. Entre outros aspectos, envolve questões éticas, políticas e culturais e está intrinsecamente associada aos determinantes de saúde. Essas considerações refletem um pouco daquilo de que se ocupa o Grupo de Trabalho sobre Racismo e Saúde Mental do Ministério da Saúde.
O Grupo de Trabalho sobre Racismo e Saúde Mental foi composto pela Coordenação Geral de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas – CGMAD/SAS, em parceria com o Departamento de Apoio à Gestão Participativa – DAGEP/SGEP, com a Politica Nacional de Humanização/SAS, o Departamento de Gestão da Educação na Saúde – DEGES/SGTES e o Departamento de Atenção Básica – DAB/SAS. Vem se reunindo mensalmente, desde abril de 2014, para discutir o tema Racismo e Saude Mental. Além de representantes do Ministério da Saúde é composto também por representantes da academia e representantes da sociedade civil organizada vinculada ao tema da questão racial e saúde mental. Entre os propósitos mais diretos desse grupo está o de delinear estratégias que culminem na consolidação do cuidado em saúde junto à RAPS, visando aprimorar a escuta e acolhimento aos usuários de seus serviços, bem como adotar práticas de promoção da saúde que compreendam negros e não negros por meio de práticas intersetoriais.
Nos debates desenvolvidos no Grupo de Trabalho sobre Racismo e Saúde Mental é reconhecida a necessidade de propiciar ao profissional de saúde, subsídios para que aguce seu olhar sobre as questões raciais e seus efeitos na conformação do sofrimento psíquico. Entende-se que as ações em saúde, por seu conjunto, devem ser dirigidas para todos os usuários e profissionais de saúde ou da rede intersetorial, e não exclusivamente à população negra. Há de se considerar o negro, que se angustia por sua condição, do mesmo modo que o não negro, que se angustia por não saber lidar com a questão racial e seus próprios valores.  A logica de qualquer ação nesse campo é promover a quebra da repetição de condutas excludentes e do preconceito. Nesse sentido, a ampliação do preenchimento do quesito raça-cor é primordial para a formulação das políticas públicas de saúde, inclusive em saúde mental. A questão racial também não aparece de modo significativo no Projeto Terapêutico Singular, o que sugere que as estratégias de cuidado, usualmente, não consideram o pertencimento étnico e identitário do usuário.