sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Mãe negra, criança negra: identidade e transformação

Desde os relacionamentos que geram uma gravidez até o momento do parto, muitas questões sociais se entrelaçam, na maioria das vezes revelando as mais diversas faces do racismo brasileiro

Por Jarid Arraes*
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Bia Onça e seu filho, Malcolm Akins
Ana Beatriz da Silva, conhecida como Bia Onça, geógrafa, é mãe do pequeno Malcolm Akins, de quase três anos. O nome do filho, inspirado em um grande ícone da luta negra nos Estados Unidos – Malcolm X – também traz no registro o significado “valente, corajoso”, marcado pelo Akins de origem egípcia. A escolha do nome revela a maternidade politizada e consciente do seu papel transformador, que do próprio nome escolhido para o filho já começa a enfrentar os indícios de uma sociedade racista e eurocêntrica: Onça levou o filho bebê para ser vacinado no posto de saúde do seu bairro, entregou o cartão de vacinação da criança e esperou sua vez de ser chamada. No entanto, foi surpreendida com o deboche da enfermeira, que criticou o nome do menino na frente de todos. Apesar do ato não ter passado em branco, Onça deixa evidente que entendeu o episódio como um caso de racismo – e por isso não se calou.
O racismo, aliás, é um dos temas centrais para mães negras, sejam elas militantes de grupos ativistas ou não. Desde os relacionamentos que geram uma gravidez até o momento do parto, muitas questões sociais se entrelaçam, na maioria das vezes revelando as mais diversas faces do racismo brasileiro. Para as mulheres negras que entram na maternidade cheias de temores, há, de fato, muito com o que se preocupar. A segurança e o bem estar dos seus filhos estão sempre em jogo, não somente por todas as apreensões comuns aos pais, mas também porque a marca do racismo cria obstáculos políticos, sociais e culturais concretos, que podem prejudicar a vida das crianças de forma aguda. A começar pela sua identidade.
A criança que sabe de sua negritude
No Brasil, a cultura da negação racial é dominante e ainda muito presente na mentalidade da população. Por causa da herança racista que se perpetua desde o período da escravidão, os brasileiros ainda compreendem a miscigenação racial como uma forma de negar as diferenças raciais entre as pessoas; por isso, é comum que grupos inteiros se identifiquem como miscigenados, mestiços e misturados, mas não como pessoas negras. Na verdade, a identidade negra parece ser ignorada ao máximo por muitas pessoas, que recorrem a termos como “moreno”, “mulato” ou “cor de jambo”, entre muitos outros que evidenciam a dificuldade em se reconhecer negro.
Desse modo, pode ser complicado construir uma identidade racial segura quando não se possui bases e educação para compreender e discutir as questões raciais. Assim como qualquer outro valor que se deseja ensinar às crianças, o reconhecimento da própria identidade racial e o que isso significa é um dos papéis dos pais e mães que já passaram por processos similares. As crianças negras que crescem em famílias conscientes desses aspectos possuem mais chances de desenvolver uma percepção positiva de si, além de crescerem mais preparadas e fortalecidas contra o racismo.
Daniela da Silva, jornalista e servidora pública, tem uma filha de 8 anos, fruto de um relacionamento com um homem branco. Maria Antônia, sua filha, tem a pele mais clara que a da mãe e o cabelo liso; seria mais uma “morena”, caso não estivesse se desenvolvendo em um lar consciente e bem informado. “A construção da identidade negra foi feita pela minha mãe desde que eu me lembre. Por eu ser negra de pele clara, ela investiu muito para que não houvesse dúvidas em minha cabeça. Faço o mesmo com minha filha, pois além da pele clara, o cabelo é liso e o pai é branco”, explica Silva. “Conversamos, ouvimos música, falo de minha religião (sou de candomblé), não deixo assistir TV aberta, monitoro o que lê e escuta, sempre identificando os aspectos raciais e comentando coisas cotidianas como ‘olha, filha, nesse restaurante, que é caro, quase não tem gente negra’ ou no prédio que moramos, ou no avião. Com prazer, escuto ela responder, às vezes: ‘mas nós estamos aqui, né, mamãe?’”
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“A construção da identidade negra foi feita pela minha mãe desde que eu me lembre. Por eu ser negra de pele clara, ela investiu muito para que não houvesse dúvidas em minha cabeça”, diz Daniela da Silva, mãe de Maria Antônia
Maria Antônia já se identifica como negra e convive com referências que fortalecem a sua identidade racial: “Vemos muitos filmes estrangeiros, principalmente americanos. Ela também vê séries e comento com ela ‘olha, essa menina parece você’. Nos EUA, mesmo as latinas se identificam como negras, então alimento essa audiência mais do que a de produções brasileiras, sem nenhuma culpa. Outra coisa que estimulo – a partir da iniciativa dela – é ser fã da Beyoncé, da Rihanna, negras claras como nós”.
Daniela Silva conta que a filha já desejou ter o cabelo crespo igual ao seu, quando era menor, mas depois que passou a conhecer mulheres negras de cabelos lisos, aceitou suas características e agora convive com a admiração que nutre pelos cabelos cacheados. “Outra coisa que ela ama é tomar sol, banho de mar, de piscina, para ficar comparando nosso tom de pele. ‘Estou quase igual a você, Mamãe’.  Como temos uma relação amorosa e eu estou num processo contínuo de empoderamento, acho completamente natural e desejável que ela queira se parecer cada vez mais comigo”, declara.
Para mães como Mara Evaristo, a preocupação de fortalecer seus filhos contra o racismo é parte indissociável da identidade que as crianças constroem. Evaristo é Coordenadora do Núcleo de Relações Étnico-Raciais da Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte e Conselheira Municipal de promoção da Igualdade Racial e, por isso, já é a própria referência de engajamento político que os filhos podem olhar para se espelhar. No entanto, conta que apesar de ter inserido os filhos na agenda negra da cidade, possibilitando que entrassem em contato com manifestações culturais negras e políticas afirmativas, o conhecimento das crianças a respeito do racismo veio à medida que foram percebendo que recebiam tratamento diferente a depender da situação. “Essa fase sempre é dolorosa em qualquer idade”, lamenta Evaristo.
Junto com a identificação do racismo, busquei possibilitar que aprendessem sobre a sua origem, sobre a humanidade e a história dos negros no Brasil. Hoje, filho e filha sabem que descendem de um povo guerreiro, de grande conhecimento e que lutou e luta muito para não se submeter a opressão”, conta. “Sabem também que a luta permanece porque compreendem o que o racismo é capaz de fazer com um continente como a África. E digo mais, sabem o que eu não sabia na idade deles, que o racismo é um monstro camaleão, com a capacidade de nos fazer assimilar sua genética rapidamente”.
A valorização dos símbolos de origem africana e a riqueza de material educativo que fale da África, por exemplo, são presentes na educação que essas mães oferecem aos seus filhos. Bia Onça fala com orgulho da atividades que desenvolve com Malcolm Akins e se alegra ao afirmar que o seu filho já demonstra se compreender como negro. “O nome dele já diz sua origem e da onde ele vem. E a todo o momento tentamos afirmar e reafirmar sua negritude, como estar sempre entre seus familiares e na creche, onde pontuamos sempre a sua origem e o que pensamos sobre o papel da criança negra neste espaço”, explica. “Tento a todo momento apresentar coisas da nossa corporeidade negra a ele e sinto que ele gosta e se identifica, como músicas, danças, livros e bonecas negras.  Penso que devo, como responsável, apresentar todas as identidades a ele, todas possíveis, mas reforço a ele sua identidade negra”.
E por falar em boneca, felizmente o esforço pela concretização de uma educação plural e diversificada também levanta a conscientização sobre questões de gênero e o combate ao machismo. Bia Onça relata: “Ele chegou em casa apontando o que era coisa de menina, conversamos com ele e pontuamos na escola. E toda vez que ele vem com essa, ‘mamãe ou papai, é de menina?’, nós pontuamos que não é de menina e que é de menina e de menino. É uma coisa que deve ser trabalhada diariamente sempre. Para se ter uma ideia, ele vê objetos rosas e já associa a meninas. A escola tem infelizmente esse desserviço sobre a questão de gênero com os nossos pequenos e nós temos que pontuar”.
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Mara Evaristo, com os filhos: “A agenda feminista, até bem pouco tempo atrás, pouco atendia ou respondia às demandas das mulheres negras”
Algo compartilhado também por  Evaristo: “Em relação às questões de gênero, os desafios também são grandes. Sempre houve a necessidade de destacar que a agenda feminista, até bem pouco tempo atrás, pouco atendia ou respondia às demandas das mulheres negras. Vejo o movimento crescente e atual do feminismo negro com urgente e extremamente saudável, porque tem nos representado, tem nos dado voz e isso terá um impacto forte e positivo nas infâncias negras”.
Violência obstétrica e o machismo racista
Parte da vivência da criança negra consciente é de observações na própria família e de tomar conhecimento da experiência de vida dos parentes ao seu redor. O racismo e o machismo, portanto, estão presentes nas histórias contadas para a criança, que infelizmente percebe que essas histórias de violência começam até mesmo antes do seu nascimento.
Bia Onça conta que sua experiência com as escolhas pessoais e profissionais na maternidade foram tardias: “Fiquei grávida com 37 anos de idade, depois de 5 anos de relacionamento e de comum acordo com meu companheiro; logo, foi uma gravidez feliz, sem problemas de saúde, familiares e amigos por perto dando maior força, bebê saudável. Tivemos alguns problemas já nas últimas semanas com o parto, que seria normal, já que tive um pré-natal perfeito, (fiz dois pré-natais) no hospital público (de referência no Rio de Janeiro, para meu caso que tenho miomas) e no hospital particular, que foi mediano para ruim”.
No final da gravidez, o hospital público que a atendeu entrou em obra. “Minha obstetra, que sabia que eu tinha plano de saúde, me colocou de forma sincera as dificuldades que seria ter o filho naquelas condições naquele hospital e a mesma me indicou possibilidades de hospitais particulares com 34 semanas. E aí conseguimos um obstetra que fizesse meu parto, porém, em condições de datas fechadas, porque era carnaval e tinha o meu receio dos meus miomas e, no desespero, fechamos e tivemos nosso filho de cesárea”.
Sobre racismo, Bia Onça relata que passou por diversas situações durante sua gravidez. “Como sou magra e não apresentei muita barriga, dificilmente alguém me dava lugar no metrô, no ônibus, a ponto de um dia uma senhora dizer que eu aguentaria ficar de pé no metrô. Perguntei o porquê e ela disse que eu era negra e que gente da minha raça aguenta. Eu discuti e criei um constrangimento no metrô, penso que talvez ela não faça mais isso. E mais racismo; quando fui fazer uma das últimas ultrassonografias, num centro médico famoso e caro, aconteceu que eu e meu companheiro sentimos o constrangimento no atendimento e quando o médico nos chamou e começou a ultra, ele começou a questionar o preço e que talvez nós não tivéssemos dinheiro para pagar uma ultrassonografia (super moderna) que o centro médico oferecia”.
Ainda pior do que essa situação, foi o que Bia Onça passou na hora de ter seu filho. “Quando fui me internar no hospital particular, o atendimento do hospital, eu com meu companheiro, na hora de preencher a ficha a atendente pegou minha identidade e foi anotando, não perguntou nada que estava na ficha. Eu, num estado de apreensão para ter a criança, nem me liguei, mas meu companheiro ligado percebeu que ela na parte de colocar minha profissão colocou ‘do lar’. Daí, meu esposo questionou e pediu que a mesma fizesse outra ficha e questionamos se ela sempre faz isto com as mulheres negras que entravam no hospital.  E na hora do parto, que foi tranquilo, até que a enfermeira no final da cesárea olha para minha cara (eu deitada aberta) e diz a seguinte frase: ‘É, Ana Beatriz, ano que vem você vai estar aqui de novo?’. Eu, só com meu olhar fulminante, respondi que não e outro enfermeiro viu a situação e disse: ‘Ela está com cara de que não volta no ano que vem, não, e de que não está gostando da sua pergunta’. Nós, mulheres negras, infelizmente vivemos essa situação”.
A marca da violência obstétrica e o tratamento racista dado às mulheres negras nos hospitais, sejam eles públicos ou particulares, é conhecimento comum das mães negras, que não poupam exemplos e reivindicações. A recente campanha do Ministério da Saúde, SUS Sem Racismo, trouxe algumas estatísticas oficiais que embasam os argumentos das mulheres negras:  elas são atendidas, em média, por menos tempo do que as mulheres brancas e são 60% das vítimas de mortalidade materna no Brasil. Na pesquisa, ao contrário das 46,2% das mulheres brancas que foram acompanhadas durante o parto, apenas 27% das mulheres negras receberam o mesmo acompanhamento e, além disso, somente 62,5% das mulheres negras foram orientadas sobre a importância do aleitamento materno, contra 77% das mulheres brancas que receberam a mesma orientação.
A mulher negra mais bem informada que engravida teme não ser bem atendida. Quando engravidei, já tinha conhecimento das estatísticas e dados sobre atendimento diferenciado, sobre a negação de anestesia, sobre a maior taxa de mortalidade. Tomei a decisão de – mesmo tendo o dinheiro do parto – ter minha filha no SUS por que eu já queria que fosse um parto normal e por que eu tenho esse direito, pago impostos, vivo num país que se diz democrático e se fosse preciso exigiria isso também”, conta Daniela da Silva.
Eu tive a sorte pelo médico que acompanhou minha gestação e realizou o parto poder ser definido com dois adjetivos: profissional e ético” – afirma Mara Evaristo – “mas essa não é a regra e digo isso por ter ouvido narrativas de amigas, conhecidas negras e brancas que viveram a gravidez na mesma época que eu ou me contaram de suas vivências. Saber quem será o médico no dia do parto, como será a cirurgia, de que forma o corpo se transformará, ser apresentada à equipe de enfermeiros e anestesistas, conhecer a dinâmica do hospital, ter apoio nos momento de contração, fazer o enxoval, ter boa alimentação e ouvir do companheiro, dos amigos e da família que será um bebê lindo porque terá os seus olhos, a sua cor, o seu cabelo. Esse deveria ser o processo natural de qualquer gravidez, mas não é”.
Para além das estatísticas oficiais, dados do governo e argumentos das militantes, a experiência da mulher negra com sua gestação e seu parto pode fazer grande diferença na sua relação com seus filhos e com a maternidade. Por outro lado, a resiliência ainda é um dos atributos presentes nessa equação social. A ideia do sexo frágil, de fato, nunca foi um estereótipo que coube às mulheres negras e, em muitos casos, não se trata de uma escolha pela força, mas da única alternativa para garantir uma vida digna para si e para seus filhos.
Maternidade negra: uma constante transformação do mundo
A criança que conhece a história dos seus pais e reconhece a luta contra o racismo e por uma vida melhor também pode demonstrar, além da compreensão aguçada a respeito das questões sociais, um senso de proteção e de se sentir pertencido a um núcleo familiar repleto de cooperação e amor. Por isso, a construção da identidade e a referência da negritude fazem tanta diferença na forma como essa criança se relaciona com o mundo. Silva compartilha um exemplo: “Minha filha não sofre discriminação diretamente porque para a maioria dos brasileiros ela não é negra, é o que chamam de morena. Mas, um dia fui buscá-la na escola e uma menina falou meio descrente, pra mim: “Você é a mãe dela?” Minha filha veio na mesma hora e me abraçou: “É a minha mãe, sim! Por quê?” A menininha não falou mais nada. Foi engraçado. Fiquei orgulhosa da leoazinha. Mas, já contei para ela episódios em que eu fui discriminada, especialmente quando ela era bebê porque ela era muito clarinha… As pessoas pensavam que eu era a babá em algumas situações e até prestei queixa uma vez de uma mulher que me atendeu mal no serviço médico por achar que eu era babá”.
Mães como Daniela Silva fazem um papel de transformação social que, infelizmente, falta como prática na sociedade. “Maria participa de reuniões do coletivo de mulheres negras que integro, o Pretas Candangas, onde tratamos do assunto. Ela fica jogando, ouvindo música, mas também ouve [os debates] quando quer. Já foi comigo ao Festival Latinidades, reuniões da AMNB, da Cojira, já viu entrevistas minhas falando de preconceito e discriminação. É um universo que ainda não a magoou frontalmente, mas ela sabe que é doloroso para a mãe”. Entre ondas conservadoras que pregam a preservação da família, há poucos exemplos como esse. Sua prática e seu papel de mãe não se encaixam em discursos hipócritas, porque produzem mudança social significativa e preparam pessoas como sua filha, Maria Antônia, que se tornam seres humanos capazes de construir valores melhores, de respeito e habilidade para viver em comunidade com toda a diversidade humana. “Recentemente, contei que a Mirian França foi presa por ser pobre e negra, mesmo sem que se apurasse corretamente a participação dela no episódio do Ceará”, conta Silva. “E ela [Maria Antônia] disse: “quem prendeu ela é que devia ser preso!’”.
E o exemplo é a melhor forma de ensinar. Mara Evaristo enfrentou o racismo que os filhos sofreram há cerca de 13 anos em um episódio de discriminação que ocorreu na escola e deixou frutos belíssimos, apesar da experiência dolorosa. “Buscamos o diálogo porque se tratavam de crianças; e junto com professoras e a direção desenvolvemos um projeto, que no primeiro ano durou dois meses. No segundo ano envolveu todo as turmas e no terceiro ano entrou para o PPP da instituição, ou seja, integrou todo o currículo alterando material pedagógico, dinâmicas cotidianas, relação com funcionários, os projetos realizados por todos os professores. Foi um período de dor, que nos tornou mais fortes e cientes dos desafios que uma família negra enfrentará na criação dos filhos”.
Os impactos de sua atitude permanecem vivos na subjetividade dos seus filhos, nas outras crianças que foram atingidas pelas intervenções e também em si mesma, como um incrível exemplo do potencial abrangente da maternidade negra. “Essa primeira experiência vivida em família, me fez estudar e desenvolver uma oficina de formação para os professores nomeada “Sonhos em Papel – Identidades em Construção”. Nessa oficina, eu apresentava pesquisas que mostravam como a criança pequena poderia construir uma identidade positiva e de que forma a educação poderia contribuir para isso. Esse momento definiu meu campo de atuação profissional até hoje”.
A receita desse potencial, felizmente, não é restrita. Silva aconselha outras mães que desejem auxiliar suas crianças no fortalecimento de suas identidades negras, sempre levando em consideração a responsabilidade que devem possuir para com as outras pessoas. “O principal na relação de mãe e filha é construir uma relação de sinceridade com as dificuldades, sejam financeiras, raciais, de gênero ou coisas do cotidiano. Mostrar que a vida é uma luta e que a da gente está muito boa comparando com a de outras pessoas. Falo a ela que a maioria das meninas negras não têm acesso ao que ela tem e que isso só acontece por que a mãe dela teve oportunidade, aproveitou e que a ama e por isso trabalha muito, para que ela tenha oportunidades também”.
Em relação à religião, respeito que ela possa fazer outra escolha e não a obrigo a participar de tudo do candomblé. Ela não gosta de alguns rituais e adora outros, então levo nos que ela gosta. Quando vai, pergunta muito! Todos têm paciência no meu terreiro, no do meu avô – onde também vamos. E um dia feliz em minha vida foi quando ela pediu para participar do xirê pela primeira vez e vestir a roupa. Mas, ela chama de ‘sua religião, mamãe’ e sempre pede coisas a Deus, mas se precisar, acende velas e me pergunta a quem pedir e aí eu digo direitinho. Quando fica doente, pede que uma guia minha que faz descarrego cuide dela também.  Fé, amor, autoestima e orgulho da ancestralidade…  Prioridades aqui em casa”, conclui.
Para Evaristo, também é fundamental lembrar de todas as outras mulheres negras e mães que chegaram a dar suas vidas para que um texto como esse pudesse hoje existir. “Responder a essas perguntas me fez reviver dores e alegrias. Ser mãe é o melhor e maior presente que a vida me deu. Lembro do olhar das crianças, desde o primeiro dia na maternidade. Os olhos redondinhos do Luiz. Os olhos puxadinhos da Tainá. Os choros manhosos, os cheiros, as primeiras risadas. Os primeiros passos. O primeiro dia na escola. O lustra-móveis no chão para ajudar na limpeza da casa – foi difícil remover, mas rendeu boas risadas. As pipocas com filme, as pipas no ar, os sustos na avó. Compartilhar pequenos segredos. Correr, cantar, gritar, pular, dançar, brincar com os amigos. Eu sou grata a vida porque pude viver tudo isso”.
A verdade, no entanto, é que todas essas experiências não são suficientes para tranquilizar o coração. “O jornal, a mídia mostram cotidianamente que o Brasil é um país racista, sexista e intolerante, onde matar negros, mulheres e homossexuais continua sendo rotina. Sou solidária com todas as mães que perderam seus filhos e filhas tragicamente. Sou solidária aos filhos que perderam suas mães drasticamente. Eu sinto dor pelos filhos da Cláudia Silva Ferreira. Eu sinto dor pelos filhos cujas mães morreram nesse Brasil lutando por dignidade. Ainda assim, precisamos continuar. 2015 é Década dos Afrodescendentes e o ano da Marcha das Mulheres Negras. Que as nossas lutas cotidianas nos fortaleçam, que nos aproximem e que nos ombreiem de tal forma que vida plena e dignidade sejam pilares para nossos filhos”, finaliza Evaristo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Aborto no Brasil, quantos passos faltam? ou quais são os passos para a legalização do aborto no Brasil?


Por Emanuelle Goes*


Quantos passos faltam? ou quais são os passos para a legalização do aborto no Brasil? Duas perguntas instigantes, quando me deparo com a França que comemora 40 anos de legalização do aborto no País, há 40 anos que as mulheres francesas tem direito de decidir com segurança a sua escolha, e na Europa somente três países não tem o aborto legalizado (Lena Lavinas, Carta Capital). Enquanto isso, a realidade do lado de cá, nos Países da America Latina, anda a passos são lentos, somente Cuba e mais recente o Uruguai. 

Sobre o Brasil, existe alguns pontos nevrálgicos e que é uma realidade que pode ser igual a muitos lugares no mundo, a compreensão de que a agenda sobre os direitos reprodutivos, mais precisamente o aborto é responsabilidade unicamente do movimento de mulheres e feministas, bem, pode ate ser e dever ser as protagonistas dessa luta, dessa agenda, no entanto a necessidade de ampliar o debate e a adesão de outros sujeitos políticos é de extrema importância, a participação ativa de Entidades e Conselhos de Classe dos profissionais de saúde.

Os profissionais de saúde e para ser mais especifica os profissionais médicos e as profissionais da enfermagem que lançam mão da relação de poder para submeter as mulheres em  abortamento a quadro de constrangimentos e violações, utilizando desse espaço para punir as mulheres, vale ressaltar que os profissionais de saúde assistem a elas com olhar do moralismo e desumanizado, nada profissional, mesmo quando o aborto é previsto por lei, no caso do Brasil são três situações quando a gravidez traz risco de morte à mulher, quando resulta de estupro e interrupção da gravidez, em casos de comprovação de anencefalia fetal, neste momento humanização fica reservada para as mulheres que estão em trabalho de parto, que nesta situação são mais importante, mas só neste caso. Só para lembrar que o exercício do direito nos serviços de saúde passa pelo entendimento pessoal e moral do profissional, posso citar aqui a pilula do dia seguinte, que cada profissional cria o seu protocolo no atendimento, ou ate mesmo a oferta do preservativo para os/as adolescente, passa primeiro pelo crivo do juízo de valor, para depois quem sabe pelo direito.
Trago a reflexão sobre os profissionais, pois ao ler o artigo acima citado, nele me é revelado que a luta pela legalização do aborto tem o protagonismo do movimento feminista "Em 1973, surge o MLAC (Movimento pela Liberalização do Aborto e da Contracepção) que reúne à época não apenas feministas, mas também membros da classe médica que passam a praticar aborto seguro, ainda que ilegal e passível de prisão", ou seja os profissionais médicos faziam um aborto seguro, contrario do que vemos em nossa realidade com as praticas insalubres e inseguras, realizadas com profissionais despreparados em clinicas de fundo de quintal.


Quantas mulheres precisam morrer, virar estatística para que alguma coisa de fato aconteça neste Pais, pois todos os anos contamos quantas mulheres morrem por conta da clandestinidade na procura desesperada para solucionar a sua vida. Sei que vamos precisar de muitos caminhos, pois o nosso País tem uma preferencia pelo retrocesso, pela violação dos direitos básicos, que é a vida.

Vamos precisar de muitos outros sujeitos para intensificar e agregar a luta, porque ainda faltam muitos passos, considerando que temos neste momento temos um parlamento reacionário, quase dos tempos das trevas, das caças as bruxas, e as bruxas somos nós. Então são a nós que eles vão caçar, as que lutam por direitos de decidir, de escolher, direito a autonomia do corpo e da vida, contra a lesbo-homofobia, contra ao patriarcado, contra ao sexismo e sobretudo contra o racismo.

*Enfermeira, Blogueira, Movimento de Mulheres Negras, Doutoranda em Saúde Pública (UFBA)

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Sou mulher, sou negra, sou da favela e hoje sou médica

William Martins

Ariana Reis, 32 anos, chegou ao fim de 14 anos dedicados à universidade: três de preparação para as provas de acesso, cinco do curso de Pedagogia, seis do de Medicina. No convite para a cerimónia de formatura, terminava com o seguinte: “Sou mulher, sou negra, sou da favela e hoje sou médica.”
Porque “é difícil”. Porque Ariana é a grande excepção num Brasil onde é raro encontrarem-se médicos negros nos hospitais. A “caçula” de 12 irmãos foi a primeira a ir para a universidade. Era a única mulher negra da sua turma na Faculdade de Tecnologia e Ciências da Bahia. Em seis anos a estudar Medicina, cruzou-se com apenas duas estudantes negras de outros anos. “Nos hospitais sempre me confundem com a menina que limpa o chão. Se cai qualquer coisa: ‘Você vem aqui, pega o pano, limpa.’ Quantas vezes eu já ouvi isso? Muitas vezes. [Olham para mim]: ‘Ah, é a enfermeira, a técnica.’ Se estou sentada lá na mesa — sabem que é um médico que está ali na mesa — [perguntam]: ‘É você? Ah…’” E Ariana responde: “Vou chamar a pessoa responsável por isso.” Ou então mostra o distintivo na bata: “Está aqui, sou médica.”
Isto acontece com pacientes brancos e negros: “Na verdade, os brancos ficam mais impressionados. Os negros me abordam mais porque não estão acostumados a ver na sua comunidade pessoas em cargos assim de mais prestígio.” Ariana tenta mudar o olhar de quem a ofendeu: um negro não faz só limpezas, é possível que uma médica seja negra.
De facto, ela raramente se cruza com médicas negras — médicos ainda vai vendo, mas poucos. Cresceu a ouvir: “Negro não presta.” E por isso: “Cresci dizendo: ‘Meu Deus, eu sou negra e negro não presta.’ Não tinha orgulho de ser negra. Meu pai era o primeiro a dizer que negro não presta, que negro faz sempre coisa ruim e que não é para ter orgulho de ser negro — ele sendo negro.”
Mas o pai, pedreiro, morreu com orgulho da filha negra. Estava bastante doente, com Alzheimer, quando Ariana soube que tinha conseguido a bolsa para entrar em Medicina — cancelando assim o curso de Pedagogia que estava quase no fim. Chegou a casa, e contou: “Pai, passei em Medicina. Eu acho que ele entendeu. No outro dia faleceu. Isso é uma dor para mim. Ironia do destino, né? Filha passando em Medicina, pai falecendo no outro dia.”
Apesar de tudo, quando pedia dinheiro para livros, para a escola, ele dava. “Era o maior sacrifício.” Mas ele dava. Na época de aulas, tinha o costume de a esperar à noite nas paragens de autocarro, porque o bairro era perigoso e “tem que ficar olhando”. “Sempre me incentivou. Sempre.”
Ela cresceu a ouvir que negro não presta, mas cresceu também a dizer que queria ser médica. Aos 15 anos, estava num hospital com o sobrinho que tinha caído. Virou-se para o médico, até ali brincalhão, “dando risada”, e disse: “Olha, eu estudo muito para ser médica como você.’ Houve um silêncio da parte dele. Aquele que estava brincando, sorrindo, conversando com a gente se fechou. E aí, como eu falo muito baixo, [pensei] que ele não ouviu, falei mais alto: ‘Olha eu estudo muito porque quero ser médica como você, como o senhor.’ Aí ele virou, olhou para mim como se dissesse: ‘Ponha-se no seu lugar, você não vai conseguir.’ [Pausa] Saí dali arrasada. Arrasada.”
Tinha levado “um balde de água fria”. “Mas não desisti por isso, não.” Afinal, Ariana é conhecida por ser “do contra”: “Se tinha aquilo para fazer e ninguém conseguia, eu ficava, ficava, ficava até conseguir.”
Tentou Medicina, antes de entrar em Pedagogia, por três vezes. Numa delas, em que “não passou”, chegou a casa, à varanda de um apartamento numa favela, e “chorou, chorou, chorou”, lembra a mãe, no mesmo sítio, agora numa noite de Fevereiro, já com a filha formada. E o irmão a dizer-lhe: “Você vai alcançar, vai alcançar.”
O irmão não está em casa da mãe na noite em que lá vamos, mas estão algumas das irmãs, sobrinhas e sobrinhos. Os jovens sentam-se na sala, logo à entrada, agarrados aos telemóveis e a olhar para o ecrã da enorme televisão. Vê-se logo a fotografia da cerimónia de formatura de Ariana, em formato gigante: ela de bata, cabelo arranjado, maquilhada. Morro acima, vivem as irmãs, noutras casas. Foi naquela sala que ela estudou e continua a estudar Medicina, com gente a entrar e a sair. No edifício ao lado, fiéis de uma Igreja Evangélica cantam alto, batem palmas.
Quando entrou em Medicina, pagava três mil reais por mês (cerca de 920 euros) — mas tinha uma bolsa do ProUni, um programa do Ministério da Educação que paga 50% da mensalidade a alunos em instituições privadas. Quando estudou Pedagogia, fê-lo ao abrigo das cotas raciais, uma das políticas de acção afirmativa no Brasil que pretendem aumentar a percentagem de população negra nas universidades.
No segundo país com a maior população negra do mundo a seguir à Nigéria, ser negro é pertencer a uma maioria de 51% da população de 200 milhões. Mas o último Censos, de 2010, mostrava que apenas 26% dos universitários eram negros; e apenas 2,66% dos alunos que terminaram o curso de Medicina eram negros, num estudo feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais para o canal UOL. Estes números explicam-se, em parte, com a despesa da educação no Brasil: quem estuda em escolas privadas até ao fim do secundário tem mais hipóteses de entrar nas universidades públicas, as melhores.
Para conseguir pagar a universidade privada, Ariana fez uns trabalhos avulsos, como limpar a casa da irmã ou ajudar alguns colegas na faculdade. “É muito difícil. Consegui entrar na universidade porque cheguei num tempo em que meus irmãos já estavam trabalhando e puderam me ajudar também. As cotas ajudam e muito. Como é que a gente que vem da escola pública vai concorrer com esse pessoal da escola privada que não passou por greves de professores e de funcionários? É-lhes cobrado desde que nascem: ‘Vocês têm que ter um nível superior.’ Têm espelhos na família: médicos, engenheiros, professores. Nas famílias pobres, a maioria negras, a mãe é dona de casa, o pai é pedreiro, o pai está desempregado, o pai é bandido, o pai é ladrão.”
Ela estava entre os melhores da turma, diz. Em cirurgia, foi considerada a aluna-padrão. A diferença em relação aos outros é que tudo custava muito mais: saía de casa de madrugada para não apanhar engarrafamentos e garantir que estava nas aulas a tempo e horas, fazia “ginástica” ao dinheiro porque tinha de passar um dia inteiro fora de casa, tinha de comprar livros caríssimos, alguns a “mil, dois mil reais”…
Voltamos à história do convite. Queremos saber o significado daquela frase que ela colocou no final: “Mulher já é discriminada por si só, tem salários inferiores aos dos homens, se for negra ainda pior. Da favela, o pessoal acha que é ladrão. Virei médica: isso é possível.”
Para se ter uma ideia do que diz: com o mesmo nível de escolaridade, as mulheres brancas ganham 68,7% do salário dos homens brancos, enquanto os homens negros ganham metade e as mulheres negras menos ainda, 38,5% (dados retirados do estudo Igualdade Racial no Brasil: reflexões no Ano Internacional dos Afrodescendentes, 2013, IPEA).
Ariana está num hospital militar como voluntária (mas tem um salário). Quer fazer bancos em hospitais do interior para ganhar algum dinheiro e estudar para fazer a prova de cirurgia geral. “Vou cursar dois anos de cirurgia geral em hospitais e terminando os dois anos vou prestar novamente prova para fazer residência em cirurgia pediátrica durante três anos.” Cirurgia porquê? “Gosto de resolver. E cirurgião resolve muito.”

Fonte: Hoje Tem



quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

NOTA PÚBLICA: Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver

Brasília, 11 de janeiro de 2015.
O Comitê Nacional Impulsor da Marcha de Mulheres Negras 2015, reunido em Brasília nos dias 10 e 11 de janeiro, definiu a alteração de data de realização da Marcha das Mulheres Negras 2015 contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver para 18 de novembro de 2015, na capital federal.
A mudança de data é decorrente da avaliação das organizações que integram o comitê nacional sobre:
 o recrudescimento do racismo e sexismo e o avanço de forças conservadoras e neoliberais no Estado e na sociedade civil;
 a composição de uma agenda contínua de enfrentamento à violência racial e patriarcal em todos os espaços que se façam necessários com respostas contundentes e sistemáticas do movimento de mulheres negras em âmbito local, regional e nacional;
 novas interlocuções políticas que demandam novas estratégias de combate ao racismo e ao sexismo.
Frente a esse quadro político, incorporou-se à Marcha a seguinte agenda de mobilização, nos municípios e nos estados, de Março a Novembro de 2015:
 8 de Março: Dia Internacional da Mulher.
 21 de Março: Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial.
 27 de abril: Dia Nacional da Trabalhadora Doméstica.
 13 de Maio: Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo.
 25 de Julho: Dia da Mulher Afrolatinoamericana e Afrocaribenha.
 18 de Novembro: Marcha das Mulheres Negras 2015, em Brasília.]
No mesmo encontro, o Comitê Nacional assumiu o caráter executivo, sendo composto por: Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), Associação das Pastorais Negras (APNs), Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), Fórum Nacional de Mulheres Negras, Movimento Negro Unificado (MNU) e União de Negros pela Igualdade (Unegro).
Comitê Nacional Impulsor da Marcha das Mulheres Negras 2015 contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver
Contatos: marchanegras2015@gmail.com e facebook.com/marchamnegra

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

As bruxas ainda vivem! Afinal o que são as parteiras tradicionais?


Por Emanuelle Goes*


Demorei um pouco para escrever sobre a minha experiência ao me deparar com uma bruxa, de fato, aquela parteira tradicional é uma bruxa. Estou falando de Dona Zefa (Josefa Maria da Silva, nascida na Serra da Guia (SE). Parteira, quilombola, líder comunitária e religiosa, consultora, orientadora, benzedeira, médica, mediadora de conflito, pai, mãe e a via de solução, finalizando: porta e saída para tudo em sua comunidade)¹ e que tive a oportunidade de conhecer ao realizar a interlocução do seu dialogo com outras mulheres no Seminário Mulher e Cultura, dialogamos sobre corporeidade e feminismo, e como as mulheres de comunidades e povos tradicionais tem o seu espaço de autonomia fortalecido pelas praticas tradicionais como a realização do parto, alem das rezas e bênçãos. Pois neste lugar a cultura, o cuidado, o feminino é político.

Dona Zefa da Guia
Dona Zefa, tanto em sua comunidade como no hospital local é conhecida como Dona Guia, uma liderança que orienta, uma mulher que guia o ser humano trazendo para este mundo, sim em suas mãos milhares de pessoas chegaram neste mundo, foi ela que Guiou, orientou, Dona Zefa, Dona Guia, “a nossa bruxa”. Dona Zefa, iniciou como parteira aos 11 anos de idade e como rezadeira aos 7,  o que ela traz é dos antepassados, é sua missão de vida, quando se refere a sua espiritualidade, o seu saber e o cuidado empírico.

Só para fazer um resgate histórico, no processo de execução de milhares de pessoas na Europa Ocidental, das quais 70% a 90% eram mulheres, a historia da caça as bruxas e a extinção de curandeiras devem ser vistas como parte da historia da exclusão das mulheres da pratica na saúde e onde neste lugar as mulheres eram vistas como sabias - curandeiras, parteiras e herboristas (VIEIRA, 2002). A retirada das mulheres deste espaço foi estratégico para o estado e para a igreja em monopolizar e patriacalizar o saber e o conhecimento das mulheres, alem de ter o maior domínio e controle sobre o seu corpo.

No Brasil onde as praticas de saúde tem o modelo biomédico como hegemônico, em que tem na figura do profissional medico como o sabedor e detentor do conhecimento, é difícil garantir a pratica de outros cuidados de saúde integral e humanizado inclusive os tradicionais frente a fragmentação e medicalização da atenção. O reconhecimento tradicional como parte integrativa da atenção a saúde vai na contramão do modelo hospitalocêntrico, especialmente na medicalização do parto. Sabemos do aumento do numero de cesária  (intervenção que só pode ser realizada pelo medico(a)) no País e ao mesmo tempo se reconhece que intervenções realizadas com outras profissionais como enfermeira obstetra e obstetriz  e por parteiras tradicionais reduz severamente o risco de morte materna. Então precisamos avançar nesta agenda por uma saúde integral, pela qualidade de vida das mulheres.

"O acesso aos cuidados de saúde de qualidade é um direito humano básico. Cerca de 40 milhões de mulheres ainda dão a luz sem cuidados especializados, aumentando o risco de morte e invalidez tanto para a mãe quanto para o bebê. Mais do que nunca, o mundo precisa agora de parteiras. Investimentos nesses profissionais podem ajudar a evitar o significativo número de aproximadamente 290 mil mortes maternas e 3 milhões de mortes de recém-nascidos que ocorrem todos os anos devido à falta de profissionais de saúde bem formados e regulamentados, além de instalações adequadas. E parteiras ou parteiros ajudam mais do que o nascimento dos bebês: elas e eles também fornecem informações e serviços em saúde reprodutiva, incluindo cuidados no pré-natal e pós-natal e planejamento familiar" (UNFPA)*.



Fonte:
VIEIRA, E. M. A medicalização do corpo feminino. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2002

*Enfermeira, Blogueira, Movimento de Mulheres Negras, Doutoranda em Saúde Pública (UFBA)

1 Apresentação sobre Dona Zefa da Guia no Seminario Mulher e Cultura

sábado, 3 de janeiro de 2015

Atendimento à saúde da população negra não é integral

Por Caroline Roque

10441024_765298156861528_3448884754215296477_nNo mês de comemoração ao Dia da Consciência Negra (20) diversos assuntos são temas de mobilização de integrantes ou simpatizantes do Movimento Negro. Um deles é a saúde da população negra, questão importante mas também negligenciada pela rede pública de atenção à saúde.
De acordo com o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 51% da população brasileira se declara preta ou parda, dessa forma, mais da metade dos cidadãos do país está amparada pela Política Nacional de Saúde Integral da População Negra criada pelo Ministério da Saúde por meio da portaria nº 992, de 13 de Maio de 2009.
Com o objetivo geral de promover a saúde integral da população negra, priorizando a redução das desigualdades étnico-raciais, o combate ao racismo e à discriminação nas instituições e serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), o desafio é de fato colocar em prática as premissas que regem o Plano, que reconhece o racismo, as desigualdades étnico-raciais e o racismo institucional como determinantes sociais e condições de saúde.
“A Política Nacional, que pode diminuir disparidades raciais na saúde, é pouco difundida. Existe a discriminação institucional, quando profissionais da área não estão preparados para atender a população negra ou até são preconceituosos, levando à diferenças e desvantagens no tratamento devido à raça”, explica a doutoranda da Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Agnes Raquel Camisão.
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Para Agnes Camisão, parte da população negra não se reconhece devido ao estereótipo negativo da raça, levando o negro a ser visto ainda pelo olhar do outro (Crédito: Caroline Roque)
Para Agnes, falta aos profissionais conhecer o Plano, por isso na academia precisa-se falar mais sobre o atendimento especializado à população negra, cujo tratamento deve ser diferenciado, considerando aspectos genéticos (responsáveis por maior incidência de algumas doenças em negros) e fatores sociais (como o racismo, gerador de diversas dificuldades desde o acesso à assistência até o encadeamento de enfermidades psicológicas).
“O preconceito é naturalizado e sendo o enfermeiro um educador por excelência, devemos ensinar o valor de uma raça para as pessoas”, afirma Agnes.
Foi considerando este cenário, que o Ministério da Saúde, lançou na terça-feira (25/11) a campanha contra o racismo no SUS. Com o slogan “Racismo faz mal à saúde. Denuncie!”, o objetivo é conscientizar a população de que o preconceito racial realmente afeta a saúde dos indivíduos. Para mais detalhes da campanha, você pode clicar neste link.
Dados do Ministério  indicam que uma mulher negra recebe menos tempo de atendimento médico do que uma mulher branca. Os números mostram que, enquanto 46,2% das mulheres brancas tiveram acompanhante no parto, apenas 27% das negras utilizaram esse direito. Outro levantamento revela que 77,7% das mulheres brancas foram orientadas sobre a importância do aleitamento materno, enquanto 62,5% das mulheres negras receberam essa informação.
Segundo a pasta, as taxas de mortalidade materna infantil entre a população negra são superiores às registradas entre mulheres e crianças brancas. Os números mostram que 60% das mortes maternas ocorrem entre mulheres negras e 34% entre mulheres brancas. Já na primeira semana de vida, a maioria das mortes é registrada entre crianças negras (47%) entre as brancas, o índice é 36%.
‘Doenças da pele’
As pessoas negras nascem com predisposição ao desenvolvimento de algumas doenças como, por exemplo, hipertensão arterial (pressão alta), diabetes, obesidade e anemia falciforme.
Porém, sabe-se também que a falta de atenção no acolhimento e tratamento, os índices de mortalidade mais alto e estresse psicossocial gerado pelo preconceito também afetam a saúde do grupo étnico, mas especificamente, a saúde mental, levando à doenças psíquicas.
“A população negra está adoecendo e morrendo por doenças da pele, algumas causadas pelos problemas de inferioridade”, alerta a psicóloga e educadora social Cinthia Cristina da Rosa Vilas Boas, militante do movimento negro há 10 anos.
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Doenças predominantes na população negra exige a necessidade de um atendimento à saúde com equidade e igualdade (Crédito: Caroline Roque)
O racismo é uma violência que causa sofrimento psíquico e mexe com a emoção individual, que são definições internas, construídas a respeito de si e do mundo em que se vive.
Cinthia explica que o racismo paralisa ou mobiliza o indivíduo que é vítima do preconceito. Geralmente, em um primeiro momento, ele paralisa, o que pode acarretar em diversos resultados negativos em relação à saúde da pessoa, que no caso de reagir, passa a se mobilizar contra o que passou.
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Segundo a psicóloga Cinthia Vilas Boas o ideal é não deixar que o racismo paralise o indivíduo, mas sim que o mobilize (Crédito: Caroline Roque)
“Para o profissional da saúde, é importante trabalhar a equidade do SUS, é importante que ele saiba trabalhar as diferenças. A população negra precisa saber dos direitos e as prioridades de tratamentos que têm”, ressalta a psicóloga.
“O mais importante é ser tratado como igual a partir das diferenças”, conclui Cinthia, ao alertar quanto à deficiência na rede básica de saúde quanto à assistência psicológica às vítimas de racismo e preconceito, que deixa a desejar em relação aos princípios do SUS.
A fim de avançar no tema, o Conselho Federal de Psicologia criou a resolução nº 018, em 2002, que estabelece normas de atuação para psicólogas e psicólogos em relação ao preconceito e discriminação racial.
Editado por Jacqueline Fernandes.

Fonte: Digitais PUC-Campinas