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Mostrando postagens de Janeiro, 2015

Mãe negra, criança negra: identidade e transformação

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Desde os relacionamentos que geram uma gravidez até o momento do parto, muitas questões sociais se entrelaçam, na maioria das vezes revelando as mais diversas faces do racismo brasileiro
Por Jarid Arraes* Bia Onça e seu filho, Malcolm Akins Ana Beatriz da Silva, conhecida como Bia Onça, geógrafa, é mãe do pequeno Malcolm Akins, de quase três anos. O nome do filho, inspirado em um grande ícone da luta negra nos Estados Unidos – Malcolm X – também traz no registro o significado “valente, corajoso”, marcado pelo Akins de origem egípcia. A escolha do nome revela a maternidade politizada e consciente do seu papel transformador, que do próprio nome escolhido para o filho já começa a enfrentar os indícios de uma sociedade racista e eurocêntrica: Onça levou o filho bebê para ser vacinado no posto de saúde do seu bairro, entregou o cartão de vacinação da criança e esperou sua vez de ser chamada. No entanto, foi surpreendida com o deboche da enfermeira, que criticou o nome do menino na frente de t…

Aborto no Brasil, quantos passos faltam? ou quais são os passos para a legalização do aborto no Brasil?

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Por Emanuelle Goes*

Quantos passos faltam? ou quais são os passos para a legalização do aborto no Brasil? Duas perguntas instigantes, quando me deparo com a França que comemora 40 anos de legalização do aborto no País, há 40 anos que as mulheres francesas tem direito de decidir com segurança a sua escolha, e na Europa somente três países não tem o aborto legalizado (Lena Lavinas, Carta Capital). Enquanto isso, a realidade do lado de cá, nos Países da America Latina, anda a passos são lentos, somente Cuba e mais recente o Uruguai. 
Sobre o Brasil, existe alguns pontos nevrálgicos e que é uma realidade que pode ser igual a muitos lugares no mundo, a compreensão de que a agenda sobre os direitos reprodutivos, mais precisamente o aborto é responsabilidade unicamente do movimento de mulheres e feministas, bem, pode ate ser e dever ser as protagonistas dessa luta, dessa agenda, no entanto a necessidade de ampliar o debate e a adesão de outros sujeitos políticos é de extrema importância, a par…

Sou mulher, sou negra, sou da favela e hoje sou médica

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William Martins
Ariana Reis, 32 anos, chegou ao fim de 14 anos dedicados à universidade: três de preparação para as provas de acesso, cinco do curso de Pedagogia, seis do de Medicina. No convite para a cerimónia de formatura, terminava com o seguinte: “Sou mulher, sou negra, sou da favela e hoje sou médica.” Porque “é difícil”. Porque Ariana é a grande excepção num Brasil onde é raro encontrarem-se médicos negros nos hospitais. A “caçula” de 12 irmãos foi a primeira a ir para a universidade. Era a única mulher negra da sua turma na Faculdade de Tecnologia e Ciências da Bahia. Em seis anos a estudar Medicina, cruzou-se com apenas duas estudantes negras de outros anos. “Nos hospitais sempre me confundem com a menina que limpa o chão. Se cai qualquer coisa: ‘Você vem aqui, pega o pano, limpa.’ Quantas vezes eu já ouvi isso? Muitas vezes. [Olham para mim]: ‘Ah, é a enfermeira, a técnica.’ Se estou sentada lá na mesa — sabem que é um médico que está ali na mesa — [perguntam]: ‘É você? Ah…’” …

NOTA PÚBLICA: Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver

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Brasília, 11 de janeiro de 2015. O Comitê Nacional Impulsor da Marcha de Mulheres Negras 2015, reunido em Brasília nos dias 10 e 11 de janeiro, definiu a alteração de data de realização da Marcha das Mulheres Negras 2015 contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver para 18 de novembro de 2015, na capital federal.
A mudança de data é decorrente da avaliação das organizações que integram o comitê nacional sobre:
 o recrudescimento do racismo e sexismo e o avanço de forças conservadoras e neoliberais no Estado e na sociedade civil;
 a composição de uma agenda contínua de enfrentamento à violência racial e patriarcal em todos os espaços que se façam necessários com respostas contundentes e sistemáticas do movimento de mulheres negras em âmbito local, regional e nacional;
 novas interlocuções políticas que demandam novas estratégias de combate ao racismo e ao sexismo.
Frente a esse quadro político, incorporou-se à Marcha a seguinte agenda de mobilização, nos municípios e nos estados, de Ma…

SOBRE RACISMO, COLORISMO, PIGMENTOCRACIA (ou chame do que quiser)

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Gilza Marques*
"Dedico esse texto às minhas irmãs pretas de pele escura"
Acho que eu nunca tinha me dado conta da hierarquia de cores existente no âmbito dos grupo negros até me mudar pra Brasília. Só recentemente eu percebi que alguma coisa estava me incomodando muito, eu só não sabia o que era. Era o tal do colorismo que eu percebo aqui. Com essa polêmica da Globeleza, resolvi escrever sobre. Sem querer magoar ninguém, falemos de pigmentocracia. Em Salvador, as pessoas com as quais eu me relacionavam tinham, em sua maioria, a pele preta e um cabelo que não forma cachos. Eu sou do grupo das mulheres pretas de pele escura do cabelo 4c (o que é muito diferente de ter cabelo 3b, ou 4a e a pele mais clara). Igualmente a Naiara Justino, sou do grupo das pretas consideradas pretas demais. Todas as poucas referências negras que eu via na TV não me contemplavam. Quando Halle Berry ganhou o Oscar, eu pensei: "mas ela não se parece comigo!" (muito diferente do que senti quando …

As bruxas ainda vivem! Afinal o que são as parteiras tradicionais?

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Por Emanuelle Goes*

Demorei um pouco para escrever sobre a minha experiência ao me deparar com uma bruxa, de fato, aquela parteira tradicional é uma bruxa. Estou falando de Dona Zefa (Josefa Maria da Silva, nascida na Serra da Guia (SE). Parteira, quilombola, líder comunitária e religiosa, consultora, orientadora, benzedeira, médica, mediadora de conflito, pai, mãe e a via de solução, finalizando: porta e saída para tudo em sua comunidade)¹ e que tive a oportunidade de conhecer ao realizar a interlocução do seu dialogo com outras mulheres no Seminário Mulher e Cultura, dialogamos sobre corporeidade e feminismo, e como as mulheres de comunidades e povos tradicionais tem o seu espaço de autonomia fortalecido pelas praticas tradicionais como a realização do parto, alem das rezas e bênçãos. Pois neste lugar a cultura, o cuidado, o feminino é político.
Dona Zefa, tanto em sua comunidade como no hospital local é conhecida como Dona Guia, uma liderança que orienta, uma mulher que guia o ser h…

Atendimento à saúde da população negra não é integral

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Por Caroline Roque
No mês de comemoração ao Dia da Consciência Negra (20) diversos assuntos são temas de mobilização de integrantes ou simpatizantes do Movimento Negro. Um deles é a saúde da população negra, questão importante mas também negligenciada pela rede pública de atenção à saúde. De acordo com o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 51% da população brasileira se declara preta ou parda, dessa forma, mais da metade dos cidadãos do país está amparada pela Política Nacional de Saúde Integral da População Negra criada pelo Ministério da Saúde por meio da portaria nº 992, de 13 de Maio de 2009. Com o objetivo geral de promover a saúde integral da população negra, priorizando a redução das desigualdades étnico-raciais, o combate ao racismo e à discriminação nas instituições e serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), o desafio é de fato colocar em prática as premissas que regem o Plano, que reconhece o racismo, as desigualdades étnico-raciais e o rac…