quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

As bruxas ainda vivem! Afinal o que são as parteiras tradicionais?


Por Emanuelle Goes*


Demorei um pouco para escrever sobre a minha experiência ao me deparar com uma bruxa, de fato, aquela parteira tradicional é uma bruxa. Estou falando de Dona Zefa (Josefa Maria da Silva, nascida na Serra da Guia (SE). Parteira, quilombola, líder comunitária e religiosa, consultora, orientadora, benzedeira, médica, mediadora de conflito, pai, mãe e a via de solução, finalizando: porta e saída para tudo em sua comunidade)¹ e que tive a oportunidade de conhecer ao realizar a interlocução do seu dialogo com outras mulheres no Seminário Mulher e Cultura, dialogamos sobre corporeidade e feminismo, e como as mulheres de comunidades e povos tradicionais tem o seu espaço de autonomia fortalecido pelas praticas tradicionais como a realização do parto, alem das rezas e bênçãos. Pois neste lugar a cultura, o cuidado, o feminino é político.

Dona Zefa da Guia
Dona Zefa, tanto em sua comunidade como no hospital local é conhecida como Dona Guia, uma liderança que orienta, uma mulher que guia o ser humano trazendo para este mundo, sim em suas mãos milhares de pessoas chegaram neste mundo, foi ela que Guiou, orientou, Dona Zefa, Dona Guia, “a nossa bruxa”. Dona Zefa, iniciou como parteira aos 11 anos de idade e como rezadeira aos 7,  o que ela traz é dos antepassados, é sua missão de vida, quando se refere a sua espiritualidade, o seu saber e o cuidado empírico.

Só para fazer um resgate histórico, no processo de execução de milhares de pessoas na Europa Ocidental, das quais 70% a 90% eram mulheres, a historia da caça as bruxas e a extinção de curandeiras devem ser vistas como parte da historia da exclusão das mulheres da pratica na saúde e onde neste lugar as mulheres eram vistas como sabias - curandeiras, parteiras e herboristas (VIEIRA, 2002). A retirada das mulheres deste espaço foi estratégico para o estado e para a igreja em monopolizar e patriacalizar o saber e o conhecimento das mulheres, alem de ter o maior domínio e controle sobre o seu corpo.

No Brasil onde as praticas de saúde tem o modelo biomédico como hegemônico, em que tem na figura do profissional medico como o sabedor e detentor do conhecimento, é difícil garantir a pratica de outros cuidados de saúde integral e humanizado inclusive os tradicionais frente a fragmentação e medicalização da atenção. O reconhecimento tradicional como parte integrativa da atenção a saúde vai na contramão do modelo hospitalocêntrico, especialmente na medicalização do parto. Sabemos do aumento do numero de cesária  (intervenção que só pode ser realizada pelo medico(a)) no País e ao mesmo tempo se reconhece que intervenções realizadas com outras profissionais como enfermeira obstetra e obstetriz  e por parteiras tradicionais reduz severamente o risco de morte materna. Então precisamos avançar nesta agenda por uma saúde integral, pela qualidade de vida das mulheres.

"O acesso aos cuidados de saúde de qualidade é um direito humano básico. Cerca de 40 milhões de mulheres ainda dão a luz sem cuidados especializados, aumentando o risco de morte e invalidez tanto para a mãe quanto para o bebê. Mais do que nunca, o mundo precisa agora de parteiras. Investimentos nesses profissionais podem ajudar a evitar o significativo número de aproximadamente 290 mil mortes maternas e 3 milhões de mortes de recém-nascidos que ocorrem todos os anos devido à falta de profissionais de saúde bem formados e regulamentados, além de instalações adequadas. E parteiras ou parteiros ajudam mais do que o nascimento dos bebês: elas e eles também fornecem informações e serviços em saúde reprodutiva, incluindo cuidados no pré-natal e pós-natal e planejamento familiar" (UNFPA)*.



Fonte:
VIEIRA, E. M. A medicalização do corpo feminino. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2002

*Enfermeira, Blogueira, Movimento de Mulheres Negras, Doutoranda em Saúde Pública (UFBA)

1 Apresentação sobre Dona Zefa da Guia no Seminario Mulher e Cultura

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