quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Carta aberta ao Governador Rui Costa e a Sociedade Baiana: 13 – “AZAR PARA OS NEGROS BAIANOS, GOVERNADOR?”

Salvador, 11 de fevereiro de 2015
“Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar…”
(Adoniram Barbosa, 1964)

Para a numerologia, o 13 simboliza coragem, iniciativa e disposição para correr riscos. Representa a autoconfiança e o otimismo de acreditar no melhor da vida, além da reação de leveza e liberdade que acompanha essa atitude positiva perante os desafios. Porém, para o censo comum, 13 é sinônimo de azar.
Treze foi o numero de jovens negros que sofrerem atentado na última sexta-feira, dia 06/02. 12 foram sumariamente assassinados: Rafael de Oliveira Cerqueira (19 anos); Natanael de Jesus Costa (17 anos); Vitor Nascimento (20 anos); Alexandre Leal (22 asnos); Luan Lucas Vieira de Oliveira (20 anos); Elenilson Santana da Conceição (22 anos); Tiago Gomes das Virgens (19 anos); Everson Pereira dos Santos (26 anos) Caique Bastos dos Santos (16 anos); Jeferson Rangel (19 anos); Agenor Vitalino (19 anos); L. M. B (15 anos) e Arão de Paulo Santos (23 anos) – sobrevivente ferido na ação. Todos identificados e apontados como marginais e delinqüentes. Argumentos que têm sido utilizados com freqüência, pela imprensa e pela polícia para justificar o seu extermínio. Provavelmente tratam-se de jovens negros com disposição para correr riscos em busca da liberdade, em busca de sonhos, expectativas essas cerceadas pela violência racial institucionalizada.
Não coincidentemente, 13 também foi o dia da abolição da escravatura. Desde 1888 até os dias atuais a negligência, o descaso, e o silêncio do Estado brasileiro com a população negra, têm relegado negros e negras a sua própria sorte.
Até quando Governador as sextas feiras serão dias temidos pelas mulheres negras e suas famílias servindo de prenúncio de mais um fim de semana de morte, sangue e terror e na segunda-feira correm para sepultar mais um filho, sobrinho, irmão, vizinho, marido, sobre o pretexto de um suposto envolvimento com o tráfico, mas será que apenas os negros cheiram, fumam, traficam e bebem?
Até quando Governador silenciaremos o nome dos políticos, famosos, brancos, reais donos e financiadores do tráfico, que não são atingidos pelo discurso fascista exposto nas propagandas do governo do estado de que quem se envolve com o tráfico tem como destino cadeia ou caixão?
Até quando Governador nossos meninos e meninas negras estarão expostos as mazelas das ruas sem acesso a educação integral e integrada, ao lazer, ao esporte, aos espaços de criatividade, as atividades culturais que possibilitam projetar e ampliar os seus horizontes, espaços de produção e de desenvolvimento pessoal e humano?
Até quando Governador a proteção dos “homens de bem” irá rimar com extermínio da juventude negra, com a exclusão e com o assédio permanente nos espaços públicos e de lazer?
Até quando Governador os criminosos travestidos de policial vão ficar impunes e serão condecorados e endeusados como “artilheiros” na hora do gol pelo próprio Estado?
Até quando Governador vamos conviver sem creches? Cem mil é o número de crianças sem creches e escola integral em Salvador.
Até quando Governador os poderes públicos se recusarão aprovar a PL 4471/2012, que exclui o auto de resistência dos crimes cometidos pela polícia, que justifica esse extermínio?
Até quando Governador o menino Joel de Amaralina, Alexandro Pinheiro, Rafael de Oliveira Cerqueiro e Denilson Campos dos Santos de Cosme de Farias, Davi Fiuza da Estrada Velha do Aeroporto, Geovane Mascarenhas encontrado no Parque São Bartolomeu e tantos outros terão suas mortes justificadas pela delinqüência e reação a abordagem policial?
Até quando Governador as mães negras desse estado viverão essa situação de desespero, sem sossego, sem tranqüilidade? Quando viveremos como pessoas “normais” plenas de direitos e a lágrimas de alegria?
Até quando Governador nós mulheres negras teremos nossa maternagem abortada violentamente pela polícia, nos levando ao estado de loucura, quando muitas saem gritando pelo nome de seus filhos nas ruas, mesmo sabendo que nunca mais terão resposta a esse chamado?
Governador, as organizações de mulheres negras da Bahia trazem na sua história um legado de luta centrada numa perspectiva de esquerda, pela defesa incondicional da vida, dos direitos do povo negro e pelo bem viver para as mulheres negras. Portanto, quando optamos por um Estado livre e democrático foi acreditando em suas instituições – Estado e Justiça – como meio de “assegurar a dignidade e o acesso de todos/as ao exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, ao bem estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos”. (Constituição Federal do Brasil).
Somos a Rede de Mulheres Negras da Bahia, articulação com 423 organizações de mulheres negras do território baiano, indignadas com as sucessivas mortes resultantes de ações violentas de extermínio da juventude negra, produto do racismo institucional e perpetradas pela Polícia deste Estado, repudiamos esta prática, ao tempo em que, exigimos providências urgente do Exmº Sr. Governador da Bahia, Rui Costa para punição dos seus autores.

Rede de Mulheres Negras da Bahia

Um comentário:

  1. "Reiteramos a nota feita pela Rede de Mulheres Negras da Bahia frente a matança de jovens negros pela polícia de Salvador sexta-feira passada. Esse fato absurdo ocorrido em 06/02 nos remete a dor dessas famílias, principalmente às mães negras, ao mesmo tempo que nos causa indignação e revolta com a declaração do governador do nosso Estado que toma em defesa a truculência e desumanidade de uma polícia despreparada e perversa.

    As palavras do governador se coadunam com o pensamento da elite branca, racista e antidemocrática que busca justificar a falha do estado em prover os bens sociais que a população jovem, pobre e negra precisa para ao invés de se arriscar em alguma forma de delinquência se tornar cidadã.

    Nós enquanto pesquisadoras da temática da mortalidade violenta e membros da Comissão de Ações Afirmativas da Universidade Estadual de Feira de Santana (CAA/UEFS) e que representamos entidades, instituições, órgão de classe estamos organizando um manifesto público através de carta ou mesmo ato público em Feira de Santana, cidade que, aliás, tem se tornado cada dia mais protagonista da matança de jovens negros.

    Temos dados de pesquisas realizadas em Feira e Salvador que mostram que a mortalidade de jovens negros, por homicídio, poderia ser evitada se os governos tomassem isso realmente como uma meta e fizessem os investimentos que são necessários para contribuir com a formação cidadã dos jovens negros ao invés de criar politicas e planos com grande alarde nos meios midiáticos e nunca implementá-los, de fato. Edna Araújo"

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