segunda-feira, 27 de julho de 2015

A carne mais barata do mercado: corpo negro feminino, violação, ética e saúde

*Emanuelle Goes

O corpo das mulheres sempre foi um espaço de experimentações e de vigilância estando sobre a égide do patriarcalismo e do sexismo. Entretanto as mulheres negras estiveram/tem experiências singulares em relação ao controle, experimentações e violações de direitos, tendo como elemento estruturante o racismo que na interação com as outras opressões aprofundam a forma de vida, de ser e estar no mundo.
No campo da saúde o racismo e o sexismo sempre estiveram presentes nos ensinamentos, na forma de atenção e nos cuidados com os negros e com as mulheres, sendo orientado a partir de um modelo eurocêntrico, masculino e patriarcal.
E dentro deste campo, o corpo das mulheres negras é visto como um espaço de realização de experiências para descoberta de doenças, ou seja expropriação ou como um espaço de apropriação do outro, a exemplo da esterilização forçada assim como no distanciamento no cuidado com o corpo negro nas realizações de procedimentos nos serviços de saúde, negação do acesso.
Neste sentido a minha reflexão versa sobre o corpo negro feminino no campo da saúde, como esta área sempre atuou de forma racializada, dicotomizada, na divisão entre os humanos e os menos humanos (sub-humanos), e as mulheres negras estão em ultima instancia. Considerando que é no corpo das mulheres que o legado da pureza racial pode ser garantido ou transgredido, por isso o controle do corpo como patrimônio de uma sociedade racista.
Sendo consideradas menos humanas, as mulheres negras, sempre foram violentadas em todos os aspectos, para explicitar o meu pensamento, vou apresentar aqui algumas situações em que as mulheres negras foram e são submetidas cotidianamente a violência, violação do direito a vida e ao seu próprio corpo quando vivo ou mesmo quando morto.
Sobre expropriação, o primeiro caso apresentado é sobre Henrietta Lacks, mulher afro-americana que teve o seu material genético roubado, o que chamam de doação involuntária, para pesquisa sobre câncer cervical. Henrietta teve câncer cervical (câncer de colo do útero) aos 30 anos (1920-1951), e após sua morte as suas células continuaram sendo cultivadas para estudo e até hoje são cultivadas em vários laboratórios em frascos de plástico contendo soro bovino. As sua células são denominadas HeLa  e são chamadas de imortais por se dividirem num número ilimitado de vezes, desde que mantidas em condições ideais de laboratório.
Apesar da contribuição do material genético de Henrietta, os responsáveis jamais deram informações adequadas à família da doadora e tampouco ofereceram qualquer compensação moral ou financeira pela massiva utilização das suas células.
Rebecca Skloot, escritora da biografia de Henrietta, tenta reverter esse quadro, compondo um comovente relato da vida e da morte da mulher negra e humilde cujo trágico e precoce desaparecimento mudou a história da medicina. Por meio do estreito contato mantido com filhos, netos e o viúvo de Henrietta durante a pesquisa para o livro, a autora discute com muita lucidez as delicadas e complexas questões éticas e raciais envolvidas na história. Saibam mais em AVIDA IMORTAL DE HENRIETTA LACKS.
O segundo caso, é o mais recente publicizado aqui no Brasil, o de Rosana Mendes que desapareceu em 2001. Rosana deixou seis filhos, ela morreu em 2009, mas a família só ficou sabendo no final de 2013, quando foi avisada pelo Ministério Público.
Rosana morreu em um hospital do Rio de Janeiro e logo após sua morte seu corpo foi doado pelo hospital para uma faculdade de medicina, sendo utilizado posteriormente como objeto de estudo, conforme autoriza a lei federal. Como ela não possuía nenhum documento, o seu corpo pode ser doado (violado) a uma faculdade.
Agora mesmo com nome, sobrenome e familiares, seus familiares não conseguem atestado de óbito e nem enterrar os restos mortais de Rosana. Corpo de desaparecida a 13 anos é encontrado em faculdade de medicina
Sobre a apropriação do corpo das mulheres negras, temos o caso emblemático das esterilizações em massa e forçada, em que outros momentos já apresentei no Blog População Negra e Saúde, demonstrando como a esterilização foi uma estratégia que teve seu ápice na década de 80 com o controle de natalidade no Brasil, com a finalizada de diminuir o contingente populacional de negros no País, atualmente esta mesma estratégia é utilizada com Mulheres negras em situação de prisão e em mulheres soropositivas em alguns países da África. Leiam Mulheres negras, racismo e a(não) garantia dos direitos reprodutivos.
Sobre a negação do cuidado no serviço de saúde, por conta de ser um corpo negro, na verdade não encontrei uma palavra para essa situação, alem de ser uma violação, violência, racismo, negação. Surge agora a contradição, que o racismo da conta disso, as mulheres negras no serviço de saúde são menos tocadas que as mulheres brancas em diversos procedimentos que precisam ser realizados pelos profissionais de saúde diretamente.
Por exemplo, as gestantes negras são menos tocadas na realização do exame físico como a medição da altura uterina. Ou na realização de exames para a detecção precoce no câncer de mama, as mulheres negras também têm as suas mamas inspecionada em menor proporção quando comparada as mulheres brancas.
No Brasil, a proporção de mulheres que nunca realizaram o exame clínico de mamas, de acordo com o Relatório Anual das Desigualdades Raciais, no ano de 2008, em todo Brasil 29,8% das mulheres acima de 25 anos ou mais de idade nunca realizaram esse exame ao longo de sua vida. E que ao desagregar por raça/cor, verificou que, entre as mulheres brancas era de 22,9% e das mulheres negras 37,5% (Relatório Anual das Desigualdades Raciais, 2008).
Os médicos brancos tocam menos nas mulheres negras, pois esses profissionais se pautam por representações sociais estruturadas pelo racismo, devido à associação direta da imagem que o profissional de saúde faz das mulheres negras.
O corpo negro feminino sempre foi um espaço de experiências, violações e negações submetido à intersecção do racismo e do sexismo, sendo o racismo o elemento estruturante.
O que podemos observar é que quando vivas a negação ao não tocar em nosso corpo para um atendimento ou cuidado no serviço de saúde, porque a população negra carrega tudo que é ruim que o racismo resolveu estigmatizar para violar.
E quando mortas nos tornamos objeto do outro, sem pertencimento, historia ou mesmo legado. E logo o nosso corpo que é carregado de ancestralidade sofre varias violação que impactam nesta e outras vidas, dentro e fora de nós.

*Blogueira, Enfermeira, Militante do Movimento de Mulheres Negras, Pesquisadora em Saúde das Mulheres Negras

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