terça-feira, 8 de setembro de 2015

O racismo começa na gravidez

Por Renata Coutinho, do Folhape


Série de reportagens aborda a realidade de mulheres negras grávidas, maiores vítimas de violência obstétrica no Estado

Brasileiros historicamente negligenciados. Mesmo maioria em diversos indicadores, como o populacional e os que apontam a necessidade de determinados tipos de assistência, os negros seguem sofrendo para conseguir direitos básicos. Na saúde, a falta de preparo de profissionais e o racismo institucional levam grávidas a padecerem da sala de espera à mesa de operação. Nas escolas, crianças e adolescentes se deparam com a falta de acolhimento de sua cultura, de sua religião, de seu cabelo, o que tem culminado em índices alarmantes de evasão. No mercado de trabalho, mais barreiras impostas pelo preconceito velado: salários menores e a sentença de só ocupar espaços destinados a quem tem menos qualificação. Na série “Questão de Pele”, publicada de hoje até terça-feira, a Folha de Pernambuco mostra histórias de gente que testemunha desde cedo os efeitos das desigualdades raciais e de quem fez da sua vida uma bandeira de luta contra a discriminação. Os textos são de Luiz Filipe Freire, Renata Coutinho e Tatiana Notaro. As fotos e vídeo de Leo Motta.
Aliada à discriminação de sexo, a da raça produz efeitos perversos na saúde das mulheres negras grávidas. O racismo resulta em violência obstétrica, morte e dor. E expõe a “desassistência da cor”. A mortalidade materna entre elas é sete vezes maior do que nas brancas. No Estado, 70,5% dos óbitos gestacionais foram de pretas e pardas segundo dados da pesquisa “Nascer no Brasil”, o maior inquérito nacional sobre parto e nascimento, realizado em 2013. As causas dessas perdas de vidas são variadas, mas refletem uma negligência histórica sobre doenças prevalentes nessa população, como anemia falciforme, hipertensão arterial e diabetes II. Denunciam o preconceito institucionalizado na saúde.
O estudo revelou que 25% delas têm gravidez de risco, mas não conseguem atendimento em serviço de referência. O parto vaginal é realizado por mais de 60% das negras. E a presença de acompanhante durante todo o processo é pequena, 16%. Já a privacidade no trabalho de parto, clareza nas explicações e participação nas decisões sobre o nascer é quase inexistente.
“O preconceito é escancarado e começa no pré-natal. A ideologia racista não cuida das especificidades da mulher negra”, atesta a representante do Comitê Técnico da Saúde da População Negra ligado ao Ministério da Saúde (MS) e integrante da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, Vera Baroni, que relata: embora o MS preconize a realização de pelo menos sete consultas antes do parto, 33% das negras fazem apenas de um a cinco atendimentos.
Outra questão aponta por ela como grave é a não realização do exame eletroforese da hemoglobina – identifica a anemia falciforme e os cuidados com a gestante devem ser ampliados, caso a doença seja identificada. “É obrigatório. Mas não é feito. Em Pernambuco, por exemplo, apenas os municípios de Recife e Olinda fazem o exame no pré-natal. Contudo mesmo assim é necessário que o médico solicite. E muitas vezes o profissional acha desnecessário”. Para Vera Barroni, há uma negligência geral, até mesmo dos gestores públicos em fazer cumprir a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.
A coordenadora da Política de Saúde da População Negra do Recife, Sony Santos, faz a mesma avaliação do cenário. Mas defende que as prefeituras têm trabalhado para interromper o racismo. “Nossa orientação é que o profissional já peça o exame de eletroforese já na primeira consulta e fique com o olhar atento para as especificidades da raça. É nosso desafio, assim como de várias cidades, combater o tratamento desigual que deixa a mulher negra em situação de vulnerabilidade”, confirmou.
Todo esse cenário a professora Lindacy Assis, 46 anos, conhece na pele. “O racismo institucional é perverso. Ele esta dentro da medicina, que é branca. Onde não há perspectiva de trabalhar com questão de gênero e raça”, apontou. Portadora de anemia falciforme – enfermidade hematológica hereditária e genética que altera os glóbulos vermelhos – Lindacy sabia dos riscos que uma gravidez na sua condição traria. Por isso ficou assombrada quando se descobriu grávida aos 22 anos.
As sucessivas ameaças de aborto, as crises de dores e o desconhecimento dos médicos sobre como cuidar de uma grávida falcêmica margearam toda a gestação. “Sentimos falta de especialistas. Entendo que é justamente por racismo. Porque a doença prevalece na população negra”, avaliou. No parto a negligência permaneceu. Ela passou mais de 12h com bolsa rompida, sendo forçada pelos profissionais a ter um parto vaginal, quando o indicado para uma paciente nas condições dela seria uma cesariana.
“É histórico e cultural aquela discriminação de que por ser negra a mulher suporta dor. Então, entre fazer uma cesariana em uma branca e em uma negra, a gente fica de lado. Foi isso que aconteceu comigo”, relembrou. A professora passou a se debruçar sobre a saúde da mulher negra falcêmica, atua no movimento negro e está escrevendo um livro que ganhará o nome “Mulheres de Foice”.
Respiração ofegante, dificuldade para ficar de pé, tontura. Fortes dores por conta de uma necrose no fêmur. Foi assim que encontramos Vanessa Ferreira, 29 anos, grávida de gêmeos e falcêmica. Ela está na segunda gestação. Na primeira foi tentado o parto vaginal até as últimas, quando de emergência foi operada. “Já não tinha forças. Não tive passagem e pensei que ia morrer. A médica nem sabia que eu tinha doença falciforme, até que minha mãe insistiu. A saúde muitas vezes não esta preparada para receber uma mulher negra”, disse.



Um comentário: