sábado, 23 de janeiro de 2016

Jout Jout, o desabafo de Caio, colorismo e o racismo “velado” no Brasil.

Por Ayana Odara*


*Mineira, tem 17 anos, esta no terceiro ano do ensino médio e faz técnico em Química. Além disso filha de pais militantes do movimento negro que sempre a ensinaram muito e a inseriram nessa discussão desde pequena
**prometo usar palavras simples para que esse texto seja compreendido por todxs sem que seja necessário recorrer ao google para entender termos específicos.
Contextualizando, Jout Jout Prazer é uma jovem fluminense de 24 anos que ficou famosa por postar vídeos sobre diversos assuntos no youtube e bombar na rede após um vídeo sobre relacionamentos abusivos (Não tire o batom vermelho). Caio tem a mesma idade e é o namorado de Jout Jout que até então, por escolha, só ficava por trás das câmeras e com isso os dois faziam um suspense sobre a aparência de Caio para os fãs do canal. Até que, um belo dia, uma foto de Caio é postada e como era de se esperar, surgiram vários comentários sobre o rapaz, principalmente sobre a sua cor.
Caio é negro. Sim, negro. Porém, juntamente com 43,1% da população brasileira (82 milhões de pessoas) ¹ Caio se declara (ou se declarava) pardo. Entretanto, a população negra brasileira é o somatório das pessoas que se declaram pretas (um total de 15 milhões de pessoas, correspondentes a 7,6% da população) ¹ ou pardas. Todavia, existe um questionamento, o que é “ser pardo” no Brasil?
Uma das definições que encontrei no dicionário desse termo é “Cuja cor está entre o branco e o preto; de cor escura”. ². Estar “entre” duas raças nos dá a impressão de que não se trata de nada específico e sim de um meio termo. É como se dissesse “Olha, sua pele não é tão clara para que você se declare branco, mas também não é tão preta a ponto de que se declare preto. Assim, você é pardo”.
Se declarar pardo num país como o Brasil, onde aprendemos que somos frutos de uma grande mistura e que “somos todos miscigenados” realmente nos parece mais coerente do que se dizer preto. Muitos de nós brasileiros, quando pensamos em “preto”, logo imaginamos em africanos (de origem nos vários países da África Subsaariana) e toda a história que nos é ensinada nos livros, na escola ou na televisão da escravização desse (meu) povo. Ser “preto” realmente não nos parece uma coisa boa. Na verdade, aprendemos desde a infância que é algo ruim. Na escola não conhecemos a nossa cultura e tudo que é passado enquanto positivo provém da Europa, não é nos passada a beleza do continente africano.
Voltando ao assunto principal desse texto, a duas semanas atrás, Caio fez um vídeo abordando essa questão e dizendo qual foi a sua reação ao ver os comentários das pessoas sobre a sua identidade, e citou o (maravilhoso) texto “O namorado negro de Jout Jout e o racismo nosso de cada dia” ³. Os comentários se dividiram entre pessoas que apoiavam Caio enquanto negro e o mandavam mensagens de força, etc., e outras pessoas que diziam que Caio não era negro. Ele mesmo cita que o marido de sua mãe (um homem negro de Guiné-Bissau) diz que ele não é negro, enquanto ele já foi comparado com Barack Obama por um grupo de amigos brancos.
Para poder declarar a sua raça é necessário saber a sua origem. Sabemos que no Brasil os privilégios são dados as pessoas sem que haja pesquisa, e sim, puramente, pela cor de sua pele. Caio cita que antes desse acontecimento nunca havia sofrido (ou percebido que sofreu) racismo. Tenho para mim que provavelmente Caio é um jovem de classe média e que não enfrentou a realidade da população negra do país. Caio está se descobrindo agora, fazendo pesquisas e divulgando aquilo que ele absorve. Caio sofreu racismo de maneira escancarada (como tantos outros jovens negros) quando recebeu comentários (de pessoas espantadas) em suas fotos.
O racismo é perverso, o que aconteceu com Caio nessa situação específica acontece com centenas de jovens todos os dias. É o mesmo racismo que mata, e não mata só quem tem a pele preta não! Ele mata quem não é branco. É importante lembrar que quando uma pessoa não se declara branca no Brasil, não quer dizer que ela é negra. Temos ainda os indígenas e por estarmos nesse grande berço de mistura se faz necessário buscar as suas origens para compreender o seu lugar na sociedade brasileira. Saber de onde veio é o principal caminho para que você saiba para onde vai.
Caio recebeu um comentário em seu vídeo dizendo que sua cor é “cappuccino” e que não importa porque seu sorriso é cativante. Agora, eu vou escrever um texto explicando que cappuccino não é uma raça e lembrar que todas as pessoas (incluindo as negras que sofrem racismo diariamente) são capazes de ter um sorriso cativante.
Boa Noite (perdoem se tiver erros de português, já ta meio tarde e sou uma pessoa com sono, rs)

Tudo que sei devo as duas mulheres maravilhosas que são minhas mães.

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