quarta-feira, 25 de maio de 2016

Comunicação e Mulheres negras: no centro da Epidemia do Zikavirus

Naiara Leite*
Emanuelle Goes**

Historicamente as mulheres negras têm buscado se aproximar dos direitos constituídos para todos no Brasil. Uma busca que tem custado humanidade, existência e continuidade de vida para uma população, que em toda sua história conhece apenas o lado reverso do direito. Se fossemos escrever um roteiro de filme com narrativas de jovens e mulheres negras sobre vivências ainda a partir das histórias que pais e mães contam perceberíamos a interferência do racismo em níveis dinâmicos para nossas construções de humanidade e de existência.

Assim iniciamos as narrativas para histórias compartilhadas nas mazelas, miséria e sobrevivências de milhões de mulheres e jovens negras, ditamos agora atos, cenas e roteiros de vidas:
“sou a terceira de cinco filhos; meu pai era pedreiro e minha mãe tinha acabado de chegar do interior pra tentar a vida na capital; minha mãe não tinha plano de saúde; meu nascimento não foi planejado; minha mãe não teve acompanhamento médico durante toda a gestação porque tinha que trabalhar; na época meus pais estavam preocupados em como criaria mais uma criança; não tínhamos casa própria, estavam construindo uma casa pequena no quintal cedido pela minha avó; com a chegada de mais uma criança e pouco recurso foram obrigados a mudar para casa que só tinham paredes, mas não tinha reboco, pintura e encanamento de água adequado; quando nasci dormíamos todos os cinco filhos no mesmo quarto, normalmente quando um ficava doente todos ficavam; minha mãe nunca gostava quando ficávamos doentes por dois motivos: não tinha dinheiro pra pagar os remédios e não gostava do tom que os médicos falavam com ela, segundo ela ficavam culpando-a por trabalhar durante o dia e a noite e nunca ter tempo para acompanhar os filhos; crescemos no subúrbio perto do esgoto que caia direto na maré que tomávamos banho e pegávamos, na maioria das vezes, o alimento; quando era época de chuva não conseguíamos dormir porque precisava tirar a água que caia dentro de casa e inundava tudo, quando a água da chuva se misturava com a água parada nos enormes buracos na rua, que ainda não era asfaltada e não tinha saneamento algum; antes de dormir colocávamos papelão atrás da porta pra evitar que ratos calungas entrassem em casa. Eles eram muitos e viam da rua, sempre que demorava de passar o carro de lixo, que na maioria das vezes levava 15 dias; sempre que tinha uma folga minha mãe costurava os mosquiteiros, pois se tivesse furado não conseguiríamos dormir com a quantidade de mosca e muriçoca que tinha em casa”.

Se as histórias das mulheres negras ultrapassassem suas vidas e subjetividades e, entrasse nas telas de cinema desde o seu nascimento até a vida adulta não teríamos papel suficiente para enumerar as violações cotidianas provocadas pela intersecção do racismo, do sexismo e da pobreza. Provavelmente, esse seria um daqueles filmes intermináveis, que ultrapassaria a expectativa de um longa-metragem, maior tempo de produção caracterizado pelo cinema.

Em outubro de 2015, fomos inseridas em mais cena de violências, violações e desumanidades. Foi noticiado neste mês e ano pela imprensa brasileira a chegada do Zika Vírus no Brasil. Nas diferentes chamadas dos noticiários vimos e sofremos com a história de mulheres e jovens negras grávidas em filas de espera nos postos de saúde pública sendo entrevistadas para falar do vírus, que é transmitido pelo mosquito Aedes Aegypti.

Ao iniciar a entrevista o repórter logo pergunta se estavam fazendo o controle e prevenção da chegada do mosquito em suas casas, se sabiam que ao engravidar estavam sentenciando seus filhos a microcefalia e quais os procedimentos e medidas estavam sendo tomadas. Um show de horrores, que pode chegar na casa, na família, nas amigas, na rua, na comunidade de qualquer mulher e jovem negra. Naquele momento todas viam em uma mesma cena.

Para pensar nas violações de direitos humanos é importante traduzir o direito à comunicação. A comunicação se tornou elemento central para a constituição de uma sociedade democrática, mesmo que, na prática a democracia seja direcionada para uma minoria da população brasileira.

Na teoria, o direito humano à comunicação significa que todas as pessoas devem poder e ter condições para se expressar livremente, ser produtoras de informação e  ter acesso a diversas fontes de informação, ou seja, exercer plenamente esse direito. Na busca pela garantia de direitos a comunicação deveria servir como representação dos processos de transformação. Porém, romper com o monopólio da fala em coberturas  midiáticas de assuntos e casos como o do Zika Vírus, significa construir uma abordagem que verse a partir das narrativas das mulheres negras, por exemplo.

Neste momento, o Zika vírus faz emergir o quanto existe negação de direitos fundamentais, humanos e constitucionais para as mulheres negras jovens, sobretudo da Região Nordeste. A epidemia Zika Vírus é o resultado dos impactos do racismo que vulnerabiliza e expõe a população negra as condições de vida mais precárias. As violações históricas dos direitos humanos, desde o nascimento dessas mulheres, que sofrem diretamente o impacto da ausência de direitos sexuais e reprodutivos, do submundo do esgoto, da falta da política de saneamento e da exclusão no acesso as informações e atendimento digno aos serviços de saúde, reflexo do racismo institucional, que estrutura as políticas públicas no Brasil.

E a responsabilização da epidemia recai sobre as mulheres negras que passaram a ser vista como as mães que condenaram seus filhos a nascerem com microcefalia e como as mulheres sem preocupação e cuidado com a faxina e higiene de suas casas, sendo a responsável em garantir o bem estar da família e da comunidade. Tal abordagem vem retirando do Estado brasileiro e do poder público toda e qualquer responsabilidade, bem como, criminalizando essas mulheres. Outra abordagem utilizada pela mídia tem sido a de visibilizar a imagem das crianças com microcefalia, na perspectiva sensacionalista de provocar sofrimento e sensibilização da sociedade para a criança com crânios deformados, porém, deixando nas entrelinhas a responsabilização e invisibilidade do sofrimento das mães, que sem a menor estrutura, apoio, solidariedade e assistência deverão cuidar de seus filhos.

Até o momento essas mulheres não tiveram o direito de falar sobre suas preocupações, inquietações e dramas, sendo a elas negado o direito de ser colocadas no centro dos debates e das abordagens, ou seja, são apenas reprodutoras e culpadas.  Estamos falando, mais uma vez, de mulheres destituídas do seu direito a maternidade e tudo que ela implica: amor, felicidade, expectativas e sonhos. 

Os diferentes movimentos de mulheres negras sempre questionaram a forma abusiva e estereotipada como a mídia tradicional trata questões relacionada ao racismo e sexismo. Há tempos esses movimentos discutem a necessidade de mudanças no sistema midiático em nosso país de forma a garantir a liberdade de expressão e o direito à comunicação de todos e todas, e não apenas daqueles que detêm o poder político ou econômico e a propriedade dos meios de comunicação em massa.

São lutas históricas contra a mercantilização dos corpos, a coisificação das mulheres negras, da imagem preconceituosa, da visibilização sensacionalista e tendenciosa dos sofrimentos das perdas dos milhares de jovens negros assassinados, da supervalorização estigmatizada do perfil e imagem sobre homens e mulheres negras perpetuadas nas novelas de época e escravistas e da invisibilidade seletiva da nossa diversidade de viver e estar no mundo e pluralidade das nossas lutas.  Somos a imagem personificada carregadas de preconceito compartilhadas nos meios de comunicação.

É importante destacar que à comunicação enquanto direito ela precisa legitimar estereótipos positivos e ressaltar valores que contribuam para o combate o racismo e todas as formas de discriminação e desigualdades.  Com experiências tão negativas no campo dos direitos humanos o enfrentamento a epidemia do Zika Vírus não é tarefa apenas das mulheres e da população negras, mas sim, de toda uma sociedade que precisa desnudar-se dos seus preconceitos e dos seus privilégios.

*Jornalista, Coordenadora de Comunicação do Odara Instituto da Mulher Negra
**Enfermeira, Coordenadora de Saude do Odara Instituto da Mulher Negra

segunda-feira, 9 de maio de 2016

A arte de partejar: o legado das parteiras tradicionais como herança ancestral e os impactos para a saúde das mulheres

*Cristiane dos Santos



 “No parto abençoou à minha mãe... e me curvo à minha mãe” (Tiganá Santana)


                                                                                
Foto de Stephannie Pommez e foi feita na comunidade de Melgaço no Pará. A parteira D. anunciação
Ao iniciar a escrita desse texto me vêm à memória algumas lembranças da infância no interior de Feira de Santana, onde nasci e me criei. Nas vivências dos dias em que ia para a roça (zona rural) com minha mãe, mais precisamente em Matinha dos Pretos, comunidade quilombola de onde se origina minha família materna, me recordo com carinho de “Mãe Piu”, parteira tradicional da comunidade, chamada de Mãe por todos naquela região em sinal de honra e respeito àquela que amparava as crianças que ali nasciam por suas mãos. Uma mulher negra, de baixa estatura, idosa, de andar ligeiro, fala mansa, riso fácil, e muita sabedoria; “a mãe de umbigo”.
Em seguida algumas cenas vêm como flashs. Estrada de chão... Um candeeiro aceso... Uma bacia de alumínio, um pote de água no canto da parede... O fogão de lenha... Muitas mulheres entrando e saindo da casa humilde... Crianças brincando no terreiro... “Mãe Piu” transita pela casa... O grito de uma mulher a parir... O choro de criança nascendo... Aí minha mãe se aproxima e me diz: "olha lá no céu, a cegonha trouxe o neném”. Aos 10 anos de idade tive aula de ciências, e então soube de fato como as crianças vinham ao mundo!! (rsrsrs).
O nascimento é o desfecho de um evento biológico, natural, social e familiar, essencial à manutenção da espécie humana. Desde o surgimento dos seres humanos, a arte de partejar foi desenvolvida pelas mulheres, sendo os saberes e práticas por elas desenvolvidos, transmitidos umas paras a outras, em forma de conhecimento e herança ancestral. O ato de partejar, executado pelas parteiras, é mediado pela cultura, e está fortemente ligado aos sistemas de valores, crenças e costumes de um determinado grupo. Neste sentido, as parteiras tradicionais são mulheres que possuem vínculos com as mulheres e com as famílias da comunidade onde habitam, sendo, portanto, parte daquela realidade sociocultural e o momento do parto, por sua vez, faz submergir lembranças da nossa ancestralidade.
Segundo Suelly Carvalho, parteira tradicional que atua no nordeste brasileiro, e idealizadora da ONG Cais do Parto, que fica em Pernambuco, “o parto tradicional, herança ancestral, permite a interação social, conta a história de um povo; reforça suas crenças, expõe suas emoções, define suas relações sociais e reafirma a identidade sociocultural coletiva; este sistema de pertinências e significados se manifesta no parto. Assim o modo como se nasce; o local onde se nasce; a prática na forma de dar à luz e nascer e quem atende o parto é tão importante quanto o próprio ato de nascer, passando a integrar a memória sociocultural de uma família e de uma comunidade”.
O desenvolvimento técnico-científico, o surgimento da Obstetrícia Moderna e a institucionalização do saber e das práticas das parteiras ao longo dos anos, desapropriou o conhecimento tradicional das parteiras, e o transferiu para instituições hospitalares e profissionais de saúde como médicos e enfermeiras. O parto passou a ser um campo de saber médico, técnico-científico e institucionalizado, atendendo a uma lógica hospitalocêntica que insiste em orquestrar ações de intervenção e medicalização dos corpos das mulheres, retirar o protagonismo delas no processo parturitivo e submetê-las a situações de violência obstétrica. 
O ato de partejar, antes considerado uma prática exclusiva das mulheres, foi sendo gradativamente expropriado enquanto campo de saber e poder feminino, passando a ser visto como um conhecimento inferior, à medida o olhar androcêntrico das ciências tornou-se hegemônico ao produzir o campo de saberes sobre o corpo das mulheres, institucionalizando o parto. A partir daí o processo parturitivo deixou de ser um acontecimento da vida das mulheres, das famílias e da comunidade para se tornar um evento hospitalizado, medicalizado, cirúrgico, doloroso e violento e o saber médico sendo legitimado em detrimento dos saberes e práticas tradicionais das parteiras.
Considerando a situação de pobreza, as desigualdades regionais na assistência ao parto, os índices de mortalidade materna e neonatal e os partos domiciliares assistidos por parteiras no Brasil, o Ministério da Saúde a partir do ano 2000 adotou várias iniciativas para melhorar a atenção à gestação, ao parto, ao nascimento e ao puerpério, dentre elas a criação do Programa Trabalhando com Parteiras Tradicionais, incluindo neste grupo as parteiras indígenas e quilombolas, com vistas a valorizar os saberes e práticas tradicionais e caracterizar a sua formação e o conhecimento que elas já detêm, considerando as especificidades étnicas e culturais, e articulando seus saberes com o saber científico (BRASIL, 2010).
O parto e nascimento domiciliar, assistidos por parteiras tradicionais ainda é muito comum, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, sobretudo nas áreas rurais, ribeirinhas, de floresta, de difícil acesso e em populações tradicionais quilombolas e indígenas. No Brasil, no qual parcela significativa das mulheres as ainda não tem assegurado o direito à assistência ao parto, há que se reconhecer o papel das parteiras para a Saúde Pública como alternativa de assistência à saúde das mulheres e ao parto, tendo em vista que o conhecimento dessas mulheres associado ao saber biomédico pode contribuir para a redução da mortalidade materna no país.
As parteiras são mulheres detentoras de conhecimentos tradicionais, de técnicas e do respeito dado por outras mulheres e suas comunidades. Aprenderam com suas mais velhas a reconhecer o poder da natureza e das divindades; a utilizar as ervas e as rezas no momento do parto; a exercer a caridade e irmandade ao estarem disponíveis a qualquer hora do dia ou noite, a qualquer distância para cuidar das mulheres em processo parturitivo; a ter paciência e esperar o momento da mulher e da criança darem o sinal de que “chegou a hora” e que precisarão dela; a ensinar às mulheres como se cuidarem durante o resguardo e também da criança.  
Os saberes e práticas das parteiras tradicionais se inserem num campo de estratégia para a redução da morte materna e neonatal, e de qualificação da assistência obstétrica no país.  O trabalho da parteira pode ser melhorado para que elas ofereçam melhores condições de cuidado às mulheres e suas crianças na hora de parir. Para tanto necessitam de capacitação, dispor de materiais básicos para a assistência ao parto, terem seu trabalho valorizado como uma ação de saúde importante para a comunidade, e serem devidamente remuneradas.
A lembrança de “Mãe Piu” ilustra para mim neste dia 05 de maio de 2016, uma data de celebração do legado e do trabalho das parteiras tradicionais no Brasil e no mundo. É, portanto, um dia de reconhecer a importância dos saberes milenares e da experiência das parteiras no cuidado à mulher e à família no processo do parto e do nascimento desde os primórdios da humanidade. Assim, pensar nas parteiras e no conjunto de saberes e práticas que elas detêm, é reconhecê-las como figura central para a perpetuação do conhecimento, e para o fortalecimento da identidade, da tradição e da cultura de uma comunidade ou de um povo.
Ao falar do legado das parteiras é possível recorrer à mitologia dos orixás africanos com arquétipo feminino. As Yabás como são chamadas, representam a energia e as forças da natureza. Foram mulheres e Deusas africanas que possuíam características peculiares que lhes conferiam beleza, força, elementos voltados à guerra e ao amor. Ao associar o trabalho das parteiras com a mitologia das Orixás femininas penso no quanto os arquétipos que compõem a natureza dessas Orixás se relacionam e influenciam no fazer, nas práticas e nos saberes elaborados e executados pelas parteiras.
Neste sentido, percebemos o quanto os elementos da espiritualidade influenciam o exercício do ofício das parteiras, tido por muitas como um dom, uma missão ou destino. As parteiras, por sua vez, herdaram de suas ancestrais o conhecimento transmitido pela tradição oral e transgeracional da arte de partejar.
Assim, as características das Yabás podem ser perceptíveis nestas mulheres parteiras, conferindo-lhes a tranquilidade das águas doces onde se banha Oxum, orixá da fertilidade, da gestação, da beleza e do amor; a altivez, seriedade, instinto de proteção e sabedoria de Yemanjá; a força da natureza, coragem e atitude de Oyá, aquela que rege os ventos, dos raios, das tempestades e confere às parteiras um olhar para a religiosidade e importância do papel social de cuidadora.
Cabe salientar que as parteiras são também mães, muitas delas de diversos filhos e filhas, e exercem outras atividades na vida diária. São donas de casa, cozinheiras, agricultoras, lavadeiras, aposentadas, mulheres de luta, que acumulam saberes e sabedoria, práticas e experiências necessárias à manutenção e continuidade histórica e das tradições de uma comunidade.
Aprendi a arte de partejar observando as mulheres e buscando atender suas necessidades, acolhendo e tentando oferecer uma assistência mais humanizada. Ainda que tenha cursado uma pós-graduação que me conferiu o título de Enfermeira Obstetra, me coloco no exercício da minha prática assistencial à mulher durante parto como uma PARTEIRA. Esse sentimento de pertencimento é essencial para uma mudança de atitude, já que me permite olhar e me posicionar perante a mulher com simplicidade, paciência e envolvimento, emoção e entrega. É no momento que assumo a posição de parteira que se estabelece a conexão entre a vida, a natureza e a ancestralidade, pois na hora do parto sou eu quem me curvo para acolher em minhas mãos as vidas que chegam ao Aiyê. 


*Mulher Negra, de Candomblé, Enfermeira, Parteira

domingo, 1 de maio de 2016

Luana Interrompida: no caminho da vida o racismo e a lesbofobia

*Emanuelle Goes


“Não serei livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas” Audre Lorde

Luana ceifada, Luana exterminada, Luana assassinada, causa básica da morte: racismo e lesbofobia, Luana transgrediu a sociedade brasileira porque queria ser inteira, queria ser só ela, amar outras mulheres iguais a ela, mas ela não estava autorizada a tamanha façanha, o estado brasileiro não autoriza, os lesbofobicos não autorizam, os misóginos não autorizam, os racistas não autorizam, então a policia executa.

Para situar a historia no dia 9 de abril de 2016, Luana Barbosa dos Reis, mulher lésbica-mãe-preta-periférica, do interior de São Paulo, foi abordada por três policiais militares e espancada na frente do próprio filho de 14 anos. Internada na Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas, faleceu quatro dia depois, não resistindo aos ferimentos, sofreu uma isquemia cerebral aguda causada por politraumatismo crânio-encefálico. Leia mais no Blog Gorda e Sapatão

O Brasil é o País que mais mata a Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans no mundo. Em 2011, segundo o Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil, a maioria das vítimas assassinadas da População LGBT eram travestis (49%), e gays (46%), e apenas 3,2% eram lésbicas, as lésbicas ainda tem menor visibilidade na tipificação do crime por lesbofobia. O relatório ainda mostra que, apenas 8,6% das Lésbicas denunciam a violência sofrida, ficando atrás de Gays (24,5%) e Travesti (11,9%).

Luana teve uma abordagem diferenciada por ser mulher negra e se vestir de forma “masculina”, mas sabendo do seu direito ela exigiu ser revistada por uma policial feminina e isso foi suficiente para que os policiais justificassem o ato racista e lesbofóbico.

No entanto as mulheres negras se deparam com a violência mais letalmente como já aponta os dados do Mapa da Violência de 2015 demonstrando o aumento da morte por causas violentas de mulheres negras em 54% em dez anos. O peso do racismo estruturante em nossa sociedade e na ação do estado, a sua atuação sistêmica e institucional autoriza a nos exterminar e fazer o que quiser com nossos corpos e nossas vidas.


Enquanto a interseccionalidade do racismo e sexismo, juntamente com outras opressões estruturar as ações do estado pouco avançaremos na garantia dos direitos humanos, constitucionais e, sobretudo o direito a vida, pois segundo Audre Lorde “As ferramentas do mestre nunca destruirão a casa-grande” e Angela Davis diz o seguinte “O desafio não é reivindicar oportunidades iguais para participar da maquinaria da opressão, e sim identificar e desmantelar aquelas estruturas nas quais o racismo continua a ser firmado. Este é o único modo pelo qual a promessa de liberdade pode ser estendida às grandes massas” 

Vamos fazer da nossa voz, a voz de Luana, vamos lutar contra todas as opressões que atingem as mulheres negras, pois só seremos livres quando todas forem livres, pois somos o reflexo no espelho, uma da outra.


*Emanuelle Goes - Blogueira, Enfermeira, Pesquisadora em Saúde das Mulheres Negras, Movimento de Mulheres Negras |emanuellegoes@gmail.com