segunda-feira, 9 de maio de 2016

A arte de partejar: o legado das parteiras tradicionais como herança ancestral e os impactos para a saúde das mulheres

*Cristiane dos Santos



 “No parto abençoou à minha mãe... e me curvo à minha mãe” (Tiganá Santana)


                                                                                
Foto de Stephannie Pommez e foi feita na comunidade de Melgaço no Pará. A parteira D. anunciação
Ao iniciar a escrita desse texto me vêm à memória algumas lembranças da infância no interior de Feira de Santana, onde nasci e me criei. Nas vivências dos dias em que ia para a roça (zona rural) com minha mãe, mais precisamente em Matinha dos Pretos, comunidade quilombola de onde se origina minha família materna, me recordo com carinho de “Mãe Piu”, parteira tradicional da comunidade, chamada de Mãe por todos naquela região em sinal de honra e respeito àquela que amparava as crianças que ali nasciam por suas mãos. Uma mulher negra, de baixa estatura, idosa, de andar ligeiro, fala mansa, riso fácil, e muita sabedoria; “a mãe de umbigo”.
Em seguida algumas cenas vêm como flashs. Estrada de chão... Um candeeiro aceso... Uma bacia de alumínio, um pote de água no canto da parede... O fogão de lenha... Muitas mulheres entrando e saindo da casa humilde... Crianças brincando no terreiro... “Mãe Piu” transita pela casa... O grito de uma mulher a parir... O choro de criança nascendo... Aí minha mãe se aproxima e me diz: "olha lá no céu, a cegonha trouxe o neném”. Aos 10 anos de idade tive aula de ciências, e então soube de fato como as crianças vinham ao mundo!! (rsrsrs).
O nascimento é o desfecho de um evento biológico, natural, social e familiar, essencial à manutenção da espécie humana. Desde o surgimento dos seres humanos, a arte de partejar foi desenvolvida pelas mulheres, sendo os saberes e práticas por elas desenvolvidos, transmitidos umas paras a outras, em forma de conhecimento e herança ancestral. O ato de partejar, executado pelas parteiras, é mediado pela cultura, e está fortemente ligado aos sistemas de valores, crenças e costumes de um determinado grupo. Neste sentido, as parteiras tradicionais são mulheres que possuem vínculos com as mulheres e com as famílias da comunidade onde habitam, sendo, portanto, parte daquela realidade sociocultural e o momento do parto, por sua vez, faz submergir lembranças da nossa ancestralidade.
Segundo Suelly Carvalho, parteira tradicional que atua no nordeste brasileiro, e idealizadora da ONG Cais do Parto, que fica em Pernambuco, “o parto tradicional, herança ancestral, permite a interação social, conta a história de um povo; reforça suas crenças, expõe suas emoções, define suas relações sociais e reafirma a identidade sociocultural coletiva; este sistema de pertinências e significados se manifesta no parto. Assim o modo como se nasce; o local onde se nasce; a prática na forma de dar à luz e nascer e quem atende o parto é tão importante quanto o próprio ato de nascer, passando a integrar a memória sociocultural de uma família e de uma comunidade”.
O desenvolvimento técnico-científico, o surgimento da Obstetrícia Moderna e a institucionalização do saber e das práticas das parteiras ao longo dos anos, desapropriou o conhecimento tradicional das parteiras, e o transferiu para instituições hospitalares e profissionais de saúde como médicos e enfermeiras. O parto passou a ser um campo de saber médico, técnico-científico e institucionalizado, atendendo a uma lógica hospitalocêntica que insiste em orquestrar ações de intervenção e medicalização dos corpos das mulheres, retirar o protagonismo delas no processo parturitivo e submetê-las a situações de violência obstétrica. 
O ato de partejar, antes considerado uma prática exclusiva das mulheres, foi sendo gradativamente expropriado enquanto campo de saber e poder feminino, passando a ser visto como um conhecimento inferior, à medida o olhar androcêntrico das ciências tornou-se hegemônico ao produzir o campo de saberes sobre o corpo das mulheres, institucionalizando o parto. A partir daí o processo parturitivo deixou de ser um acontecimento da vida das mulheres, das famílias e da comunidade para se tornar um evento hospitalizado, medicalizado, cirúrgico, doloroso e violento e o saber médico sendo legitimado em detrimento dos saberes e práticas tradicionais das parteiras.
Considerando a situação de pobreza, as desigualdades regionais na assistência ao parto, os índices de mortalidade materna e neonatal e os partos domiciliares assistidos por parteiras no Brasil, o Ministério da Saúde a partir do ano 2000 adotou várias iniciativas para melhorar a atenção à gestação, ao parto, ao nascimento e ao puerpério, dentre elas a criação do Programa Trabalhando com Parteiras Tradicionais, incluindo neste grupo as parteiras indígenas e quilombolas, com vistas a valorizar os saberes e práticas tradicionais e caracterizar a sua formação e o conhecimento que elas já detêm, considerando as especificidades étnicas e culturais, e articulando seus saberes com o saber científico (BRASIL, 2010).
O parto e nascimento domiciliar, assistidos por parteiras tradicionais ainda é muito comum, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, sobretudo nas áreas rurais, ribeirinhas, de floresta, de difícil acesso e em populações tradicionais quilombolas e indígenas. No Brasil, no qual parcela significativa das mulheres as ainda não tem assegurado o direito à assistência ao parto, há que se reconhecer o papel das parteiras para a Saúde Pública como alternativa de assistência à saúde das mulheres e ao parto, tendo em vista que o conhecimento dessas mulheres associado ao saber biomédico pode contribuir para a redução da mortalidade materna no país.
As parteiras são mulheres detentoras de conhecimentos tradicionais, de técnicas e do respeito dado por outras mulheres e suas comunidades. Aprenderam com suas mais velhas a reconhecer o poder da natureza e das divindades; a utilizar as ervas e as rezas no momento do parto; a exercer a caridade e irmandade ao estarem disponíveis a qualquer hora do dia ou noite, a qualquer distância para cuidar das mulheres em processo parturitivo; a ter paciência e esperar o momento da mulher e da criança darem o sinal de que “chegou a hora” e que precisarão dela; a ensinar às mulheres como se cuidarem durante o resguardo e também da criança.  
Os saberes e práticas das parteiras tradicionais se inserem num campo de estratégia para a redução da morte materna e neonatal, e de qualificação da assistência obstétrica no país.  O trabalho da parteira pode ser melhorado para que elas ofereçam melhores condições de cuidado às mulheres e suas crianças na hora de parir. Para tanto necessitam de capacitação, dispor de materiais básicos para a assistência ao parto, terem seu trabalho valorizado como uma ação de saúde importante para a comunidade, e serem devidamente remuneradas.
A lembrança de “Mãe Piu” ilustra para mim neste dia 05 de maio de 2016, uma data de celebração do legado e do trabalho das parteiras tradicionais no Brasil e no mundo. É, portanto, um dia de reconhecer a importância dos saberes milenares e da experiência das parteiras no cuidado à mulher e à família no processo do parto e do nascimento desde os primórdios da humanidade. Assim, pensar nas parteiras e no conjunto de saberes e práticas que elas detêm, é reconhecê-las como figura central para a perpetuação do conhecimento, e para o fortalecimento da identidade, da tradição e da cultura de uma comunidade ou de um povo.
Ao falar do legado das parteiras é possível recorrer à mitologia dos orixás africanos com arquétipo feminino. As Yabás como são chamadas, representam a energia e as forças da natureza. Foram mulheres e Deusas africanas que possuíam características peculiares que lhes conferiam beleza, força, elementos voltados à guerra e ao amor. Ao associar o trabalho das parteiras com a mitologia das Orixás femininas penso no quanto os arquétipos que compõem a natureza dessas Orixás se relacionam e influenciam no fazer, nas práticas e nos saberes elaborados e executados pelas parteiras.
Neste sentido, percebemos o quanto os elementos da espiritualidade influenciam o exercício do ofício das parteiras, tido por muitas como um dom, uma missão ou destino. As parteiras, por sua vez, herdaram de suas ancestrais o conhecimento transmitido pela tradição oral e transgeracional da arte de partejar.
Assim, as características das Yabás podem ser perceptíveis nestas mulheres parteiras, conferindo-lhes a tranquilidade das águas doces onde se banha Oxum, orixá da fertilidade, da gestação, da beleza e do amor; a altivez, seriedade, instinto de proteção e sabedoria de Yemanjá; a força da natureza, coragem e atitude de Oyá, aquela que rege os ventos, dos raios, das tempestades e confere às parteiras um olhar para a religiosidade e importância do papel social de cuidadora.
Cabe salientar que as parteiras são também mães, muitas delas de diversos filhos e filhas, e exercem outras atividades na vida diária. São donas de casa, cozinheiras, agricultoras, lavadeiras, aposentadas, mulheres de luta, que acumulam saberes e sabedoria, práticas e experiências necessárias à manutenção e continuidade histórica e das tradições de uma comunidade.
Aprendi a arte de partejar observando as mulheres e buscando atender suas necessidades, acolhendo e tentando oferecer uma assistência mais humanizada. Ainda que tenha cursado uma pós-graduação que me conferiu o título de Enfermeira Obstetra, me coloco no exercício da minha prática assistencial à mulher durante parto como uma PARTEIRA. Esse sentimento de pertencimento é essencial para uma mudança de atitude, já que me permite olhar e me posicionar perante a mulher com simplicidade, paciência e envolvimento, emoção e entrega. É no momento que assumo a posição de parteira que se estabelece a conexão entre a vida, a natureza e a ancestralidade, pois na hora do parto sou eu quem me curvo para acolher em minhas mãos as vidas que chegam ao Aiyê. 


*Mulher Negra, de Candomblé, Enfermeira, Parteira

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