terça-feira, 19 de julho de 2016

Mulheres Negras e Aborto: Autonomia e Liberdade é tema de abertura da primeira edição do Sisterhood

O Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gênero, Raça e Saúde (NEGRAS) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) lança a primeira edição do Caderno Sisterhood. Com periodicidade semestral, a publicação acadêmica tem como objetivo contemplar temas de interesse da comunidade negra, particularmente temas pouco discutidos e polêmicos, que são abordados sob a perspectiva e o olhar de ativistas negras.
“O Sisterhood será um espaço para que as mulheres negras possam expressar as suas formas de ver o mundo por meio de diversas linguagens e manifestações culturais e políticas”, afirma, no editorial, Emanuelle Goes, membro do Odara - Instituto da Mulher Negra e uma das editoras da publicação. Para o primeiro número, ela explica que, além do chamamento público, foram convidadas mulheres negras que escrevem sobre o tema em blogs e revistas para colaborar com os artigos.
O tema de abertura é Mulheres Negras e Aborto: Autonomia e Liberdade. O Caderno apresenta, sob a perspectiva das mulheres negras, textos sobre o aborto desde a produção do conhecimento, a experiência vivida, o feminismo negro, a solidão durante a decisão e o percurso, o contexto da escravidão e do racismo, as redes sociais, o aborto clandestino e o luto vivido pelas mulheres que abortaram.
“É a primeira publicação em que mulheres negras têm registrada a questão do aborto sobre sua perspectiva e esta luta, neste campo de pesquisa, ainda invisibiliza as mulheres negras ao considerar o aborto como um tema universal”, diz Emanuelle.
Sobre o NEGRAS - é um grupo de estudo e pesquisa de natureza interdisciplinar que se propõe a discutir o processo saúde-adoecimento-cuidado, nas perspectivas de gênero e de raça. Como um de seus produtos, o Caderno Sisterhood tem o compromisso de incentivar e divulgar artigos científicos, resenhas, relatos de experiências, entrevistas e outras modalidades de produção que tenham como escopo a saúde da população negra e suas interfaces.
Confira a versão eletrônica do Caderno Sisterhood – 1ª edição.
Mais informações: www.ufrb.edu.br/negrasccs

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Feminismo Negro, o Feminismo do Futuro!

“Uma carta para as mulheres negras”
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Por Emanuelle Goes e Naiara Leite para o ODARA
Em uma roda de diálogo sobre Feminismo Negro e Juventude tivemos a certeza de estar vivendo um feminismo do futuro, as falas nos embebeceram por ver meninas, adolescentes, jovens negras se afirmando neste lugar de feminista negra. Destacamos aqui duas falas, a de uma jovem negra, de forma afirmativa, que diz: “sou feminista negra, mas não sei explicar, o conceito, a teoria em si, mas sei que vivo. ”  A jovem afirma sua negritude neste lugar de mulher negra é feminismo negro.  Em seguida vem a fala de outra jovem afirmando que o feminismo negro abarca tudo, mas é importante demarcar lugar, visibilizar as identidades, as falas e as subjetividades do ser mulher negra em uma sociedade estrutura pelo racismo, sexismo, machismo e lesbofobia.
O feminismo negro tem sido para as mulheres negras a única possibilidade de falar de si. Um encontro entre a teoria e a experiência vivida, que dialogam quando a escrita é ativista. As vezes parece que a teórica prenuncia e depois vemos o manuscrito revelado como no relato descrito acima nos fazendo lembrar de Audre Lorde, uma das primeiras teóricas a trazer as dimensões interseccionais das diversas opressões vividas pelas mulheres negras lésbicas. A partir da sua escrita de mundo Lorde nos apresenta uma frase que para o feminismo negro é um lema “Não serei livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas”, ou seja o feminismo negro abarca tudo e reflete a existência de nós, mulheres e jovens negras.
Assumir-se feminista negra e contrapor a hegemonia branca, racista, patriarcal, violenta e masculina inquieta homens negros e mulheres brancas, pois é a terceira via, construída para e por mulheres negras. É um encontro de irmandade, é um lugar de alteridade, pois essa nova identidade política para as mulheres negras decorre da ausência das demandas dentro do movimento feminista e assim como dentro do movimento negro, pois nós precisamos dar conta do enfrentamento ao racismo e ao sexismo na sua intersecção. Morremos, insurgimos e ressurgimos em nossas próprias raízes.
A feminista afro-americana, Patrícia Hill Collins, apresenta cinco pontos importantes para pensarmos o feminismo negro: “1. O legado de uma história de luta; 2. A natureza interligada de raça gênero e classe; 3. O combate aos estereótipos ou imagens de controle; 4. A atuação como mães professoras e lideres comunitárias; 5.  A política sexual”.  Ela ainda reforça que a contribuição ao feminismo negro não está fechada ao mundo acadêmico e que essa contribuição intelectual, principalmente, das mulheres que pensaram suas experiências como professoras, mães, líderes comunitárias e, acrescentamos aqui as nossas lideranças religiosas de matriz africana, as Yalorixás – nosso elo de ligação com a ancestralidades de irmandades negras femininas –  tem definido os caminhos, reflexões e pensamentos de feminismo que estamos vivendo, lendo, escrevendo e construindo. Essa tem sido a razão possível para explicar que vivemos esse Feminismo mesmo sem saber explica – ló.
A Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e Pelo Bem Viver, realizada em 18 de novembro de 2015, mostrou ao mundo o que é Feminismo negro, bem com, gritou em alto e bom som, que o feminismo negro abarca tudo, somos nós e nossas vivências.  O feminismo negro expressado na marcha por mulheres negras com diversas experiências, que e se identificaram com o que chamamos de bem viver. Feminismo Negro é este o meu lugar!
Crédito fotos: Alane Reis e Inajara Diz